|
Introdução:
O jogo é para a maioria das pessoas
uma actividade recreativa, sem consequências negativas. O jogo afecta
apenas uma minoria das pessoas, de forma grave. Esta gravidade varia de
intensidade conforme as pessoas e o seu contexto ambiental. As variantes
começam na genética e na biologia, passam pelo ambiente familiar, social e
cultural, terminando nas características, traços de personalidade, ou
mesmo, no facto de residirem perto de um local de jogo, ou não. Tal como
as variáveis que predispõem um jogador a tornar-se compulsivo são
inúmeras, também as características que fundamentam a base do tratamento
são múltiplas. Existe um saber muito próprio no conjugar de todos os
factores terapêuticos aplicados àquela pessoa; “própria e específica”, que
é diferente de todas as outras, apesar das semelhanças e características
comuns desta população.
O típico jogador patológico tem de
facto competências óptimas a nível profissional, social, até há quem
defenda que possuem um QI mais elevado que a média, etc. No entanto têm
uma rede de crenças/distorções cognitivas; uma impulsividade; uma forma
incapaz e danosa de identificar e gerir sentimentos, que os arrasta para
comportamentos destrutivos. É desta forma, que supostas qualidades
revertem no manter de uma atitude egocêntrica que prejudica o próprio e
todos à sua volta.
Por isso se sabe, que quando existe
motivação para o tratamento e também uma rede assente na família, no
cônjuge, no trabalho, na psicoterapia, nos grupos de auto-ajuda (para os
próprios e familiares) as percentagens de sucesso aumentam
consideravelmente.
Felizmente, em países mais
desenvolvidos socialmente e economicamente, uma percentagem dos lucros dos
casinos e dos impostos colectados pelo estado, são canalizados para a
investigação, para centros de tratamento, para linhas de ajuda, para
promoção da prevenção deste comportamento compulsivo (jogo responsável) a
todos os níveis, etc., o que nos permite ter algumas ideias sobre o que
fazer em Portugal. Lembrando que não existem praticamente estudos
elaborados nesta matéria, excepção feita a alguns trabalhos universitários
que apenas arranham a superfície do “iceberg”, seria urgente começar
trabalhos de investigação em profundidade antes que o problema se agrave.
Urge começar a tomar medidas, pois
parece aproximar-se a abertura de uma vaga de casinos, que promete aquecer
o país, correndo o risco de se tornar num problema de saúde pública como
já aconteceu noutros países (bem mais desenvolvidos).
As consequências a nível económico,
profissional, social, familiar, cultural e claro pessoal são inúmeras;
convido-o a ver o resto do site para ter uma ideia mais consistente e
fundamentada do que foi referido.
DADOS
GERAIS:
1) Definições de jogo e de jogador:
1a) Definição do
DMS-IV-TR (Manual de
diagnóstico e estatística das perturbações mentais, 4ª edição).
1b) Definição do Guia de estudo para o DMS-IV-TR: Perturbações
Do Controlo Dos Impulsos Não Classificadas Noutro Lugar – Casos Clinicos
1c) Definição do CID-10
(Classificação de
transtornos mentais e de comportamento pela Organização Mundial de Saúde)
2) Compreendendo o jogo compulsivo: Vários conceitos
2a) A saúde no jogador patológico:
2b) Actividade criminosa
3) Crenças ou “distorções
cognitivas do jogador”:
3a) Ver conferência sobre crenças
3b) Alguns mitos e crenças
3c) Ver abordagem cognitiva
4 ) Prevenção e jogo compulsivo:
4a) O que é jogo responsável:
4b) Pessoas de risco
4c) Se for jogador regular
4d) Os sinais de aviso
Teste de avaliação à dependência
do jogo:
a) South Oaks Gambling
Screen
b) Gamblers Questionnaire
Beliefs
c) Gambling Self-Eficacy Questionnaire
d) 20
perguntas de Jogadores Anónimos
5) Fases do jogador:
5a) Fase ganhadora:
5b) Fase perdedora ou do resgate:
5c) Fase do Desespero:
5d) Fase da recuperação mediante
abstinência:
5e) Existem medos
A RECUPERAÇÃO do JOGADOR:
1) Uma adicção
diferente das outras
2) Tratamento
a) Centros de tratamento:
Estes centros são úteis em casos
de emergência
O centro de tratamento
característico
Os tratamentos em ambulatório
b) Modelos explicativos;
psicoterapias e suas diferentes abordagens:
O modelo da adicção ou da
dependência
O modelo psicanalítico
O modelo integrador de McCormick e
Ramírez
A abordem comportamentalista
A abordagem cognitiva
c) Jogadores Anónimos e grupos para
familiares:
d) Comorbilidades diagnósticas ao
nível de outras dependências e perturbações mentais:
Álcool e drogas
Perturbações psiquiátricas
A tentativa de suicídio e a
ideação suicida
e) A família e o jogador:
Como ajudar alguém que tem na sua
família um jogador compulsivo:
Se tiver um amigo com este
problema experimente:
Evite:
f) O Jogador e a sua actividade
profissional:
g) O jogo on-line:
Bibliografia:
Topo
Definition
1) Definição de jogo e de jogador: Definição do DMS-IV-TR def
(Manual de diagnóstico e estatística das perturbações mentais, 4ª edição
312.31
JOGO PATOLÓGICO [F63.O]
CARACTERÍSTICAS DE DIAGNÓSTICO
A característica essencial desta
perturbação consiste num comportamento desadaptado relativo ao jogo,
recorrente e persistente (Critério A), que conduz a disrupção nos
objectivos pessoais, familiares e profissionais. O diagnóstico não deve
ser feito se o impulso para jogar se inscrever num Episódio Maníaco
(Critério B).
O sujeito pode estar preocupado com o
jogo (por exemplo, reviver experiências relacionadas com experiências de
jogo anteriores, planeamento de novas jogadas ou preocupação com a
obtenção de dinheiro para voltar a jogar) (Critério A1).
Alguns jogadores patológicos referem
que procuram a «acção» (estado de activação, eufórico) ou a excitação,
mais do que o ganho monetário. Manter este estado de excitação obriga
frequentemente a apostas progressivamente maiores ou mais arriscadas
(Critério A2).
Os jogadores patológicos continuam a
jogar apesar de repetidos esforços para controlarem, reduzirem ou pararem
este comportamento (Critério A3).
Pode surgir inquietação ou
irritabilidade quando tentam diminuir ou deixar de jogar (Critério A4).
O sujeito pode jogar como uma forma
de escape a problemas ou como alívio de um humor disfórico (sentimentos de
desamparo, culpa, ansiedade e depressão) (Critério A5).
Um padrão de «resgatar» perdas pode
desenvolver-se como uma necessidade urgente de continuar a jogar
(geralmente com maiores apostas e correndo maiores riscos) com o objectivo
de reparar uma ou mais perdas anteriores. O sujeito pode abandonar a sua
estratégia no jogo e tentar reaver numa só jogada tudo o que perdeu.
Embora todos os jogadores possam «resgatar» durante curtos períodos, é a
tentativa de «resgatar» a longo prazo que melhor caracteriza os jogadores
patológicos (Critério A6).
O sujeito pode mentir a familiares,
terapeutas e outros, com o objectivo de esconder a extensão do
envolvimento com o jogo (Critério A7).
Quando o sujeito esgota todos os seus
recursos e crédito, pode envolver-se em comportamentos anti-sociais (por
exemplo, falsificação, fraude, roubo ou desfalque) para obter dinheiro
(Critério A8).
Pode pôr em perigo ou mesmo perder
uma relação pessoal significativa, um emprego e oportunidades académicas
ou de carreira por causa do jogo (Critério A9).
O sujeito pode também envolver-se em
empréstimos ou fianças pedindo ajuda a familiares ou conhecidos para uma
situação económica desesperada causada pelo jogo (Critério AIO).
CARACTERÍSTICAS E PERTURBAÇÕES
ASSOCIADAS
Características descritivas e
perturbações mentais associadas.
Os jogadores patológicos podem
apresentar distorções do pensamento (por exemplo, negação, superstição,
hiperconfiança, ou sensação de poder e controlo).
Muitos destes sujeitos acreditam que
o dinheiro é a causa ou solução para todos os seus problemas.
São com frequência pessoas altamente
competitivas, enérgicas, inquietas, que se entediam facilmente.
Procuram exageradamente a aprovação
dos outros e por vezes são generosas até à extravagância.
Quando não jogam, podem mostrar-se
viciados no trabalho, ou realizarem períodos maciços de trabalho quando
deixam os prazos quase expirarem.
Podem ter tendência para desenvolver
estados físicos associados ao stress (hipertensão, úlcera péptica,
enxaqueca).
Os sujeitos que procuram tratamento
por Jogo Patológico têm taxas relativamente elevadas de ideação e
tentativas de suicídio.
Estudos de homens com Jogo Patológico
sugerem que uma história de sintomas de desatenção e de hiperactividade na
infância podem constituir um factor de risco para o desenvolvimento de
Jogo Patológico em momento posterior da vida. Têm sido observadas em
jogadores patológicos taxas mais elevadas de perturbações como
Perturbações do Humor, Perturbação de Hiperactividade com Défice de
Atenção, Abuso ou Dependência de Substâncias, outras Perturbações do
Controlo dos Impulsos, Perturbação Anti-Social da Personalidade,
Perturbação Estado-Limite da Personalidade e Perturbação Narcísica da
Personalidade.
Dados laboratoriais associados.
Não existem achados laboratoriais
diagnósticos do Jogo Patológico. Contudo, diversos achados têm sido
considerados anormais em homens com esta perturbação, comparados com
sujeitos de controlo. Estes incluem medidas dos neurotransmissores e seus
metabólitos no líquido cérebro-espinhal e na urina, e resposta aos testes
neuroendócrinos, que implicam anomalias em diversos sistemas
neurotransmissores, incluindo os da serotonina, norepinefrina e dopamina.
As anomalias na actividade da
monoamino-oxidase nas plaquetas também foi referida em homens com Jogo
Patológico. Os sujeitos com esta perturbação podem manifestar elevados
níveis de impulsividade nos testes neuropsicológicos.
CARACTERÍSTICAS ESPECÍFICAS DA
CULTURA E GÉNERO
Há variações culturais na prevalência
e tipo de actividades ligadas ao jogo (por exemplo: pai go, luta de galos,
corridas de cavalos, mercado de valores). Cerca de um terço dos jogadores
patológicos são mulheres, mas em diferentes regiões geográficas e
culturas, a relação entre géneros pode variar consideravelmente.
As mulheres com esta perturbação
sofrem mais frequentemente de depressão e jogam como escape. Estão
subrepresentadas em programas de tratamento para jogadores patológicos
onde representam somente 2% a 4% da população dos Jogadores Anónimos. Este
facto parece ser resultado do maior estigma social
que pesa sobre as mulheres que jogam.
PREVALÊNCIA
A prevalência do Jogo Patológico é
influenciada tanto pela disponibilidade e duração do jogo, de tal forma
que, com a disponibilidade crescente do jogo legalizado, se tem vindo a
gerar um aumento da prevalência do Jogo Patológico.
Estudos comunitários estimam que a
prevalência do Jogo Patológico ao longo da vida se situa entre 0,4% e 3,4%
dos adultos, embora tenha sido referido que as taxas de prevalências em
certas zonas (por exemplo, Porto Rico, Austrália) se elevam a 7%. As taxas
mais elevadas de prevalência, que variam entre 2% e 8%, foram relatadas em
adolescentes e estudantes liceais. A prevalência do Jogo Patológico pode
ser mais elevada em sujeitos que procuram tratamento por Perturbações pelo
Uso de Substâncias.
EVOLUÇÃO
O Jogo Patológico começa tipicamente
no início da adolescência nos homens e mais tardiamente nas mulheres. Para
a maioria dos sujeitos a evolução é insidiosa, embora alguns fiquem «presos» com a sua primeira aposta.
Anos de jogo social podem ser
seguidos pelo início abrupto de jogo patológico, o qual pode ser
desencadeado por uma maior exposição a estas actividades ou por um factor
de stress.
O jogo patológico pode ter um padrão
regular ou episódico, mas a evolução desta perturbação é tipicamente
crónica.
Há geralmente uma progressão na
frequência do comportamento patológico, da quantia apostada e das
preocupações relacionadas com o jogo, tais como a obtenção de suporte
financeiro para jogar.
A compulsão para jogar aumenta
durante períodos de stress ou depressão.
PADRÃO FAMILIAR
O Jogo Patológico e a Dependência do
Álcool são mais frequentes em familiares de sujeitos que sofrem desta
perturbação do que na população em geral.
DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL
Esta perturbação deve ser
diferenciada do jogo social ou profissional.
O jogo social ocorre tipicamente com amigos ou colegas, dura um período limitado de
tempo e envolve gastos aceitáveis e previsíveis.
No jogo profissional os riscos são limitados e a disciplina é fulcral.
Alguns sujeitos têm problemas
relacionados com a sua forma de jogar (por exemplo, apostar com o
objectivo de resgatar perdas e perda de controlo) que não preenchem
contudo os critérios completos de Jogo Patológico.
A perda do juízo crítico e o jogo
excessivo podem ocorrer durante um Episódio Maníaco.
O diagnóstico adicional de Jogo
Patológico justifica-se somente se o comportamento não for melhor
explicado por um Episódio Maníaco (por exemplo, a história prévia de
comportamento de jogo desadaptado em momentos fora do Episódio Maníaco).
Alternativamente, um jogador
patológico pode apresentar períodos de comportamento excessivo que se
assemelham a um Episódio Maníaco. No entanto, uma vez fora do contexto do
jogo, estas características de tipo maníaco cessam.
Os problemas com o jogo podem ocorrer
também em sujeitos com Perturbação Anti-Social da Personalidade; se
forem preenchidos os critérios para ambas as perturbações, podem ser dados
os dois diagnósticos.
Fonte: American Psychiatric
Association
Topo
Guia de Estudo
Guia de Estudo Para o DSM-IV-TR -
Perturbações Do Controlo Dos Impulsos Não Classificadas Noutro Lugar –
Casos Clinicos
Estou só a
tentar recuperar
Craig é um
homem com trinta e dois anos de idade, pai de dois filhos, divorciado e
que se encontra à beira de um processo de insolvência. Retrospectivamente,
as causas dos problemas actuais de Craig já eram evidentes no último
semestre em que frequentou o liceu. Tinha sido aceite por uma universidade
prestigiada e preenchia todos os requisitos para a formatura. Craig sempre
fora um estudante aplicado, que dedicava o seu tempo quase exclusivamente
ao estudo. Repentinamente, os seus deveres académicos ficaram muito
reduzidos. Começou a passar o seu tempo livre com um grupo de amigos, de
famílias abastadas, que costumavam jogar cartas a dinheiro e apostar nas
corridas de cavalos. Embora o dinheiro não lhe abundasse, Craig
considerava que os seus parcos ganhos ao poquer e nas corridas de cavalos
lhe proporcionavam uma satisfação que nunca antes sentira.
Craig teve
bons resultados na universidade e foi admitido numa escola de medicina
dentária. Continuou a jogar cartas e a apostar nos cavalos através de uma
agência local. Tinha-se já tornado num experiente jogador e geralmente
terminava com lucro as suas noites de jogo. Nas corridas de cavalos tinha
menor sucesso, mas considerava este tipo de aposta mais excitante.
Considerava o poquer uma ciência, mas para ele eram as corridas de cavalos
o verdadeiro jogo. Embora os seus ganhos não fossem consideráveis, aquilo
que mais o excitava era o facto de considerar que estava a submeter um
pequeno elemento da sua vida aos caprichos da sorte.
Quando
ainda frequentava a escola de medicina dentária, começou a conceber um
sistema que melhorasse as suas probabilidades de vencer nas corridas de
cavalos. Este sistema proporcionava-lhe pouco mais sucesso do que as
apostas cegas. No terceiro ano do curso Craig conheceu Betsy, a mulher com
a qual viria a casar-se quando se formou. Um ano mais tarde nasceu o seu
primeiro filho, ao qual se seguiu uma nova criança dezoito meses depois.
Craig abriu um consultório especializado em medicina dentária estética e,
três a quatro anos mais tarde, a sua situação financeira era desafogada.
O paciente
continuou a trabalhar no seu sistema de jogo. À medida que ganhava mais
dinheiro, mais apostava usando o seu sistema. Craig nunca revelou à mulher
as quantias que desembolsava no jogo. Para poupar tempo, colocava as
apostas directamente do seu consultório, através de um corretor local.
Prestava grande atenção às estatísticas das corridas, apostava
judiciosamente e, em geral, acabava a ganhar.
Gradualmente, Craig começou a aumentar o valor das apostas. Certo dia,
depois de uma cuidadosa análise, apostou uma grande quantia num cavalo que
pagava dez para um. O cavalo venceu e Craig arrecadou uma enorme quantia.
Persuadiu-se de que possuía um sistema à prova de fogo, capaz de bater
todas as probabilidades negativas. Ofereceu à mulher um automóvel novo e
ambos fizeram uma viagem à Europa com os dois filhos, durante três
semanas.
Quando
Craig regressou das férias, o seu optimismo não tinha limites. Já não se
excitava com as pequenas e cuidadosas apostas que antes fazia e passou,
rotineiramente, a apostar grandes somas, na convicção de que não poderia
perder, e com intensa sensação de excitação. Agora, porém, a sua sorte
começara a mudar e ele perdia mais vezes do que ganhava. Tentou por
diversas vezes diminuir ou parar as apostas, o que apenas contribuía para
o tornar irritável, inquieto e fazê-lo recomeçar.
Em vez de
jogar de forma mais judiciosa ou conservadora, Craig entrou num frenesi e
aumentava cada vez mais as apostas. A sua vida pessoal e profissional
estruturavam-se em função das apostas nas corridas de cavalos. Telefonava
várias vezes por dia ao corretor, para apostar e tomar conhecimento dos
resultados. Muitas vezes, chegava a interromper intempestivamente os
tratamentos dos seus pacientes para fazer apostas. À medida que as suas
perdas aumentavam, Craig aumentava também as quantias que arriscava, na
tentativa de recuperar.
Craig
começou a gastar o dinheiro que o casal possuía nas suas contas de
poupança para financiar o jogo. Quando a mulher descobriu o
desaparecimento do dinheiro, confrontou o marido com esse facto. Craig
mentiu-lhe, dizendo que investira o dinheiro numa pequena empresa de
produtos dentários. A mulher, embora não perdendo todas as suspeitas,
acreditou.
À medida
que Craig continuou a jogar e a perder, começou a arriscar o dinheiro
necessário aos pagamentos relativos à educação dos filhos, aos
fornecedores e à hipoteca. Quando a mulher viu os avisos de falta de
pagamento da hipoteca, voltou a confrontar o marido. Craig acabou por
confessar que jogava e concordou em procurar tratamento. Contudo, a
terapia não teve sucesso. Craig começou a contrair empréstimos junto dos
amigos e, em seguida, junto de usurários.
Finalmente, depois de um ano de incerteza financeira, a mulher
abandonou-o, levando os filhos consigo. O consultório de Craig
desmoronou-se, ao mesmo tempo que ele tentava desesperadamente reunir
dinheiro para continuar a apostar e recuperar as perdas. Por fim,
declarou-se insolvente. Ainda assim, tentou, junto do corretor, colocar
pequenas apostas com o pouco dinheiro que tinha no bolso.
Característica essencial da categoria de diagnóstico
A
característica essencial das Perturbações do Controlo dos Impulsos é a
prática repetida de actos impulsivos que conduzem a danos físicos ou
financeiros do próprio ou de terceiros, dos quais muitas vezes resulta uma
sensação de alívio ou de libertação da tensão.
Definição
Impulso - ímpeto ou desejo súbito de realizar um acto que muitas vezes resulta numa
sensação de alívio ou de libertação de tensão.
Guia de Estudo para o DSM-IV-TR
Michael A.
Fauman Ph. D. M.D.
Text Review
Topo
DefiniçõeCID10s
de jogo
1c) Definições de jogo e
de jogador: Definição do CID-10
(Classificação de transtornos mentais e de comportamento pela Organização
Mundial de Saúde)
F60 — F69
TRANSTORNOS DE
PERSONALIDADE E COMPORTAMENTO EM ADULTOS
F63 -
Transtornos de hábitos e impulsos
Essa categoria
inclui certos transtornos de comportamento não classificáveis sob outras
rubricas. Eles são caracterizados por actos repetidos que não têm nenhuma
motivação racional clara e que geralmente prejudicam os interesses do
próprio paciente e aqueles de outras pessoas.
O paciente relata
que o comportamento está associado a impulsos e acção que não podem ser
controlados.
As causas dessas
condições não são compreendidas; os transtornos estão agrupados por causa
de amplas similaridades descritivas e não por conhecimento de que
compartilhem quaisquer outros aspectos importantes.
Por convenção, o
uso excessivo habitual de álcool ou drogas (FIO-F19) e transtornos de
hábitos e impulsos, envolvendo comportamento sexual (F65. —) ou alimentar
(F52. —), são excluídos.
F63.0 - Jogo
patológico
O transtorno
consiste de frequentes e repetidos episódios de jogo, os quais dominam a
vida do indivíduo em detrimento de valores e compromissos sociais,
ocupacionais, materiais e familiares.
Aqueles que
sofrem desse transtorno podem pôr em risco seu trabalho, contrair grandes
dívidas e mentir ou violar a lei para obter dinheiro ou evitar o pagamento
de suas dívidas. Eles descrevem um ímpeto intenso de jogar, o qual é
difícil de controlar, junto com uma preocupação com ideias e imagens do
acto de jogar e das circunstâncias que rodeiam o acto.
Essas
preocupações e ímpetos frequentemente aumentam em períodos nos quais a
vida está stressante.
O transtorno é
também denominado "jogo compulsivo", mas esse termo é menos apropriado
porque o comportamento não é compulsivo no sentido técnico, nem o
transtorno está relacionado com a neurose obsessivo-compulsiva.
Directrizes
diagnosticas
O aspecto
essencial do transtorno é jogar persistente e repetidamente, o que
contínua e frequentemente aumenta a despeito de consequências sociais
adversas, tais como empobrecimento, comprometimento das relações
familiares e ruptura da vida pessoal.
Inclui: jogo
compulsivo
Diagnóstico
diferencial. O jogo patológico deve ser distinguido de:
(a) jogo e aposta (Z72.6) (jogo frequente por excitação ou em uma tentativa de
ganhar dinheiro; pessoas nessa categoria provavelmente refreiam seu hábito
quando confrontadas com perdas importantes ou outros efeitos adversos);
(b) jogo excessivo em pacientes maníacos (F30. —);
(c) jogo em personalidades sociopáticas (F60.2) (nas quais há uma perturbação
persistente e mais ampla do comportamento social, demonstrada em actos que
são agressivos ou que, de outras maneiras, mostrem falta de consideração
marcante pelo bem-estar e sentimentos de outras pessoal.
Fonte: Organização Mundial de Saúde
Classificação de Transtornos Mentais
e de Comportamento da CID-10
Topo
2) Compreendendo o jogo compulsivo:
Antes de ser patológico o
comportamento da pessoa que joga é de cariz recreativo. Existia, com
certeza divertimento, excitação e euforia. A maior parte dos jogadores
obedece a este tipo. Nestes textos, abordaremos sempre a problemática do
jogador patológico e não do jogador recreativo. Com o tempo, algumas
destas pessoas começaram a desenvolver determinadas crenças e certezas,
ligadas a certas emoções, que as fizeram voltar repetidamente ao local do
jogo. Começaram a tornar-se “entendidos” tanto sobre o jogo em si, como
sobre a forma de vencer. Ganhar não só contra as probabilidades, como
contra as suas próprias necessidades de afirmação. È óbvio, que a promoção
e publicidade, privada e estatal, de forma mais ou menos evidente, irá
resultar num aumento desta minoria de “compulsivos” que se desenvolve numa
relação directa com o aumento de jogadores recreativos; ou seja; quantos
mais locais e formas de jogo houver, mais jogadores existirão sendo que,
confirmadamente, uma minoria deste se tornará abusiva ou dependente.
É para todos os efeitos uma doença,
reconhecida e definida aos mais altos níveis como se viu anteriormente.
Uma doença chamada “dependência” ou adicção”, em que tal como todas as
outras tem por base dois critérios base: a) síndroma de abstinência
significando no fundo que existe irritabilidade, desconforto que pode ir
até ao intenso mal estar (psicológico e físico) se não se joga e b)
síndroma de tolerância que representa a necessidade de aumentar a
intensidade da aposta para conseguir obter o mesmo efeito produzido
anteriormente. Existem outras características comuns às outras adicções
como: baixa tolerância à frustração, dificuldade em identificar e gerir
sentimentos e emoções, impulsividade marcada em várias áreas, insatisfação
crónica, marcada intensidade em mecanismos de defesa como a negação ou a
racionalização, etc.
Muitas teorias e abordagens
psicoterapêuticas contribuíram para a explicação e causas desta
problemática. Estes conceitos serão desenvolvidos posteriormente sendo de
realçar que nenhum por si só, é satisfatório ou mesmo conclusivo.
Topo
2a) A saúde no jogador patológico: asaude
Não é por ser uma adicção sem
substância, que não existem sintomas físicos no jogador patológico. Antes
de mais, são sujeitos a problemas ligados ao stress numa intensidade muito
superior aos que não jogam, revela Wynne Ressources (1994). Escolheu-se
uma investigação mais aprofundada, efectuada em várias cidades dos Estados
Unidos a membros dos jogadores anónimos, que ilustra significativamente
esta problemática, Lorenz e Yaffee (1986).Os questionários revelaram que
os jogadores sofriam de problemas de cariz psicossomático durante os
períodos de jogo activo. Os problemas mais mencionados foram; depressão
(46%); problemas de estômago (51%); insónia (35%); dores de cabeças ou
enxaquecas (29%); asma (18%); tensão alta (17%); dores nas costas (17%);
angina, “dores no coração” e palpitações (16%). Muitos destes jogadores
referiram, que estes problemas estavam relacionados com a necessidade
desesperada de dinheiro (62%); sentimentos depressivos (39%); sentimentos
de culpa (35%); sentimento de isolamento (22%) e medo de perderem o
emprego e/ou terem problemas judiciais (12%). A maior parte destes casos
salientou a ausência destes sintomas quando entraram em abstinência de
qualquer tipo de aposta a dinheiro.
Topo
2b) Actividade criminosa: actividade
Numa investigação de Bland et al
(1993), com 30 jogadores patológicos, conclui-se que 60% tinham estado
envolvidos em empréstimos ou roubo de dinheiro para poder continuar a
jogar; 30% tinham sido detidos por infracções várias; 27% por condução sob
efeito de álcool e 28% foram condenados por crimes qualificados (dolosos).
Escolheu-se esta amostra por ser representativa e os seus valores se
assemelharem a investigações efectuadas na Europa. Um trabalho de Lesieur
(1987), vai mais longe, referindo que a maioria dos detidos, e dois terços
dos jogadores não detidos, tiveram estes problemas numa relação directa
com o jogo compulsivo.
Topo
3) Crenças ou “distorções
cognitivas do jogador” crença
Ver conferência sobre crenças:
Alguns mitos e crenças:
Acreditarem que podem influenciar o
resultado; pensamento mágico; rituais e superstições; possuem sistemas
quase infalíveis; personificação da máquina em que jogam; “intuição certa”
de estar quase a dar volta à sorte; serem especiais e diferentes;
existência de máquinas boas e más; jogar ao limite é a verdadeira arte de
gozar a vida; certeza de ir recuperar o dinheiro perdido; etc.
Ver abordagem cognitiva.
Topo
4) Prevenção e jogo compulsivo: prevent
4a) O que é jogo responsável: oque
È uma actividade que tem por
objectivo o aprender a jogar de forma salutar. Pode ser desenvolvida por
várias entidades e instituições como, por exemplo: câmaras municipais e
juntas de freguesia; entidades governamentais criadas com esse objectivo;
associações criadas para o efeito com pessoas formadas para o efeito,
psicólogos e psicoterapeutas com formação nesta área específica; os
próprios casinos têm essa responsabilidade; etc.
Topo
pessoas
4b) Pessoas de risco
São consideradas pessoas de risco,
todas aquelas que, por algum motivo, possam evoluir no sentido do abuso e
dependência em relação ao jogo. Tentou-se escolher os segmentos de
população que são mais vulneráveis a esta problemática, sendo óbvio, que
poderia constar nesta lista um número de itens muito superior, assim como
poderiam estar muito mais desenvolvidos.
Em primeiro lugar surgem os
reformados, pois possuem muito tempo, uma liquidez financeira relativa e
contínua, um passado que lhes diz serem capazes de controlar o jogo e
porque não, aumentar a qualidade de vida, etc. 2) Os adolescentes ou
jovens adultos, pois precisam sempre de mais dinheiro para o seu dia a
dia, enraízam hábitos(dependências) facilmente, estão muito sujeito ao
stress, existem níveis elevados de imaturidade e irresponsabilidade,
aumenta os níveis de euforia e desafio muito próprios destas idades, etc.,
3) Pessoas em crises emocionais ou financeiras, pois são facilmente
seduzidas pelo marketing e pelas soluções fáceis e rápidas, porque sentem
não ter nada a perder, etc., 4)jogadores regulares, porque seguem a
evolução muito característica de qualquer adicção, que consiste no
uso-abuso-dependência, sendo que a fase de abuso pode durar, de forma
“controlada” vários anos até entrar na fase do desgoverno. São pessoas,
cujo jogo faz parte da vivência diária e semanal, estando por isso mais
condicionados a uma inversão de prioridades nas suas actividades. Em
quinto lugar, temos as pessoas que já cresceram num ambiente, em que
padrões de comportamento relativos ao jogo como as apostas, a euforia, o
acreditar num “saber jogar” fazem quase parte da personalidade do jogador,
é encarado como uma tradição natural e faz parte integrante das
actividades recreativas. 6)Pessoas em que haja outras dependências na
família, pois adquirem padrões de pensamento e comportamento, assim como
mecanismos de defesa muito próprios e arreigados que os fazem evoluir
nesta adicção, que por vezes difere das adicções da família de origem. São
os típicos filhos adultos de famílias disfuncionais. 7)Está amplamente
divulgado em investigações várias, e é quase uma característica dos
jogadores patológicos, o facto de terem outra dependência (seja álcool,
droga, sexo, compras, etc.) ou terem algum tipo de perturbação mental.
8)Pessoas com elevados níveis de stress, ansiedade e depressão têm um
maior risco, pois utilizam o jogo para lidar com estes problemas, o que
não faz mais do que reforçar os sintomas previamente existentes. 9) A
proximidade dos locais de jogo, é um factor determinante no aumento de
jogo compulsivo pelas pessoas que vivem lá perto. O acesso fácil, os
diversos “chamarizes e variedades”, serviços de hotelaria, assim como os
próprios comportamentos repetidos, produzem uma habituação que pode ou
não, tornar-se problemática.
Estes pontos acima referidos são
apenas tópicos e poderiam ser amplamente desenvolvidos, mas esse não é o
objectivo desta introdução à compreensão do jogo patológico.
Topo
sefor
4c) Se for jogador regular: ou sente que por vezes tem abusado, então o ideal será prestar atenção e
eventualmente seguir algumas destas sugestões.
1) Evite locais de jogo, se estiver
sob stress, ansiedade ou depressão. Jogar, apenas vai torná-lo mais
dependente de uma actividade externa (e muito adictiva) para resolver um
problema interno.
2) evite jogar como se fosse um
investimento, ou uma forma de realizar dinheiro; lembre-se das
estatísticas, das leis das probabilidades e de quem tem o retorno
financeiro geralmente...
3) Evite jogar para se alhear dos
seus problemas. Pode esquecer-se deles durante umas horas, mas eles estão
lá acrescidos de mais alguns (tempo e dinheiro perdido).
4) Evite jogar se o faz por
necessidade de viver emoções intensas, pois as mais intensas de todas vão
ser dolorosas e esta procura de emoções fortes é uma das características
da adicção ao jogo.
5) Leve uma quantia pré-determinada
para jogar (deixe os cartões de crédito em casa e não no carro)..., ou
saia quando está a ganhar.
6) Determine um tempo previamente
definido de permanência no local de jogo.
7) Vá com alguém que o conheça bem,
tenha um bom ascendente sobre si, e não pactue com a sua compulsão pela
aposta.
8) Evite jogar se perdeu na véspera e
está a sentir que vai mesmo recuperar o prejuízo. Em especial, se tem o
pensamento que assim poderá resolver todos os problemas de uma só vez.
Esta é outra das crenças principais da adicção ao jogo.
9) Evite jogar se sente um forte
impulso para o fazer (não é por acaso que está classificado no DSM-IV como
perturbação dos impulsos). Vá adiando a vontade de jogar, fale com alguém
e ocupe-se com outros afazeres até lhe passar.
10) Mantenha o jogo nas mesmas
proporções das outras actividades lúdicas e mantenha as prioridades na sua
vida bem definidas.
Topo
sinais
4d) Os sinais de aviso podem ser vários, mas os seguintes são os mais
representativos:
1) Se joga para não sentir, para não
estar preocupado com eventuais problemas que possa ter, se joga para se
abstrair e alhear da “realidade”.
2) Se encara o jogo do ponto vista do
investimento financeiro, a fim de aumentar a qualidade de vida e dos seus
familiares. Muitas vezes, os jogadores acham que merecem um tipo vida
melhor por se considerarem “especiais e diferentes” e não se ajustarem a
uma vida rotineira.
3)Se pede dinheiro emprestado para ir
jogar, ou para ir pagar dívidas relacionadas com o jogo.
4) quando verifica que tem grande
dificuldade, ou mesmo incapacidade para parar de jogar; estando a ganhar
ou a perder.
5)Se perde facilmente a noção do
tempo e do dinheiro que gastou, chegando a ficar sem dinheiro, tendo
gastado muito mais do que previsto.
6) Os problemas a nível profissional
começam a ser notórios em termos de assiduidade, pontualidade,
concentração, planeamento, produtividade, etc.
7) tem sentido ao longo deste período
um aumento de stress, enxaquecas, ansiedade, depressão, insónias e
hipertensão. Existem muitos sintomas físicos para além destes, incidindo
geralmente nos pontos mais vulneráveis de cada um (asma, úlceras, etc.).
8) acontece quase sistematicamente
que joga mais tempo e maiores quantidades de dinheiro em cada ida ao
casino.
9) Está constantemente a pensar e a
programar ir jogar novamente, sentindo remorsos imediatamente a seguir a
fazê-lo.
10) Sempre que perde, sente uma
irresistível vontade e necessidade de recuperar o dinheiro gasto,
acreditando fortemente que o vai conseguir.
11) Tem vindo a mentir e a omitir
factos relacionados com o jogo, pois sabe que isso colocaria entraves à
manutenção do seu jogo activo.
12)Em geral, sente-se distante,
triste, desesperado, só e com baixa auto-estima. Sente que está a perder o
controlo da sua vida aos poucos.
13) Já sentiu, pelo menos uma vez, a
sua reputação ameaçada, ou fez grandes esforços para a manter intacta.
14) Já colocou em risco relações
conjugais, familiares, profissionais ou sociais de vidos ao jogo. Sente
que ameaçou ou corrompeu certos valores e princípios, que eram
anteriormente inquestionáveis.
15) Já ponderou seriamente deixar de
jogar e fazer algo de concreto nesse sentido, por sentir que certas
situações foram “longe demais”.
Quantas mais respostas forem
afirmativas, maiores serão os seus problemas de jogo patológico. Quanto
mais cedo pedir ajuda para tentar resolvê-los, mais depressa terá a
possibilidade de perceber as soluções, podendo assim pô-las em prática. Se
decidiu deixar de jogar e está disposto a seguir sugestões de
profissionais ou de Jogadores Anónimos, então, tem boas probabilidades de
entrar em abstinência de jogo.
Topo
SOGS
Teste de avaliação à dependência
do jogo:
South Oaks Gambling Screen:
1. Indique por favor em qual ou quais do seguintes tipos de jogo já
apostou ao longo da sua vida. (Para uma resposta mais específica, responda
ao tipo de jogo pensando entre os últimos 3 a 6 meses). Para
cada tipo de jogo assinale uma das hipóteses de resposta “Nenhuma”,
“Menos de uma vez por semana”, “Uma vez ou mais por semana”
|
|
Nenhuma |
Menos de Uma Vez
por semana |
Uma vez ou mais
por semana |
a. |
Raspadinha………………………………………. |
ڤ |
ڤ |
ڤ |
|
b. |
Lotaria……………………………………………. |
ڤ |
ڤ |
ڤ |
|
c. |
Totoloto/Euromilhões……………………………. |
ڤ |
ڤ |
ڤ |
|
d. |
Totobola/Totogolo………………………….......... |
ڤ |
ڤ |
ڤ |
|
e. |
Slot
Machines (máquinas
de póker, de frutos, etc.) |
ڤ |
ڤ |
ڤ |
|
f. |
Bingo……………………………………………... |
ڤ |
ڤ |
ڤ |
|
g. |
Jogos de
Casino………………………………….. |
ڤ |
ڤ |
ڤ |
|
h. |
Jogos de
Cartas a dinheiro……………………….. |
ڤ |
ڤ |
ڤ |
|
i. |
Jogos de
dados a dinheiro ……………………….. |
ڤ |
ڤ |
ڤ |
|
j. |
Rifas
(para angariação de fundos)……………….. |
ڤ |
ڤ |
ڤ |
|
k. |
Jogos de
perícia: bilhar, snoker ou golf a dinheiro |
ڤ |
ڤ |
ڤ |
|
l. |
Jogos
desportivos………………………………… |
ڤ |
ڤ |
ڤ |
|
m. |
Corridas
de cavalos………………………………. |
ڤ |
ڤ |
ڤ |
|
n. |
Investimentos especulativos em acções, títulos ou
certificados……………………………………….. |
ڤ |
ڤ |
ڤ |
2. Qual foi a maior quantia de
dinheiro que gastou a jogar num só dia? (Assinale apenas uma das
opções)
Nunca
apostei dinheiro no jogo………………………. |
ڤ |
|
Menos de
1€…………………………………………... |
ڤ |
|
Entre 1
a 10€………………………………………….. |
ڤ |
|
Entre 10
a 100€……………………………………….. |
ڤ |
|
Entre
100 a 1000€…………………………………….. |
ڤ |
|
Entre
1000 a 10.000€…………………………………. |
ڤ |
|
Mais de
10.000€………………………………………. |
ڤ |
3. Assinale com uma (X) qual ou
quais das seguintes pessoas tem (ou teve) problemas com o jogo?
Pai…………………………………………………….. |
ڤ |
|
Mãe…………………………………………………… |
ڤ |
|
Irmão ou
Irmã………………………………………… |
ڤ |
|
Avô ou
Avó…………………………………………… |
ڤ |
|
Marido/Esposa ou companheira(o)…………………… |
ڤ |
|
Filho(os)………………………………………………. |
ڤ |
|
Um amigo
ou alguém importante para mim………….. |
ڤ |
4. Quando joga e perde, com que frequência volta novamente no outro
dia a jogar para recuperar o dinheiro que perdeu? (Assinale apenas
uma das opções)
Nunca…………………………………………………… |
ڤ |
|
Algumas
vezes (menos de metade das vezes que perco).. |
ڤ |
|
A maior
parte das vezes que perco……………………... |
ڤ |
|
Sempre
que perco………………………………………. |
ڤ |
5. Alguma vez afirmou ter ganho
dinheiro ao jogo, não sendo verdade? De facto, até perdeu?
Não (ou
nunca joguei)……………………………….. |
ڤ |
|
Sim,
menos de metade das vezes que perco………….. |
ڤ |
|
Sim na
maior parte das vezes……………….………… |
ڤ |
6. Sente que tem um problema com as
apostas a dinheiro ou com o jogo?
Não………………….………………………………… |
ڤ |
|
Sim, no
passado mas agora não………………………. |
ڤ |
|
Sim na
maior parte das vezes……………….………… |
ڤ |
7. Alguma vez jogou ou apostou mais
do que pretendia?
8. Já houve pessoas que o criticaram pelas apostas que faz e/ou lhe
disseram que tinha problemas com o jogo, de qualquer maneira quer queira
ou não tem a noção de que essas criticas são verdadeiras?
9. Alguma vez se sentiu culpado(a) sobre a forma como joga, ou isso
acontece enquanto joga?
10. Alguma vez sentiu como se quisesse parar de apostar dinheiro ou de
jogar mas que não era capaz?
11. Alguma vez escondeu talões de apostas, bilhetes de lotaria,
dinheiro de jogo ou outros sinais de apostas ou de jogo da sua
esposa(o)/companheira(o), filhos ou outra pessoa importante para si?
12. Alguma vez discutiu com as pessoas com quem vive sobre como gere
o dinheiro…, lida com o dinheiro…, usa o dinheiro… e/ou gasta o dinheiro?…
13. (Se respondeu
Sim à questão nº12).
As discussões sobre dinheiro referem-se às suas apostas no jogo?
14. Já alguma vez pediu um empréstimo a alguém e não pagou devido ao
jogo?
15. Alguma vez chegou atrasado(a) ao trabalho (ou escola) devido ao
jogo?
16. Se tiver de pedir dinheiro emprestado para o jogo ou para pagar
dividas de jogo, a quem ou onde obtêm esse dinheiro (Assinale “Sim”
ou “Não” para cada uma das afirmações)
a. Do
dinheiro para casa……………………………………………. |
Nãoٱ
Simٱ |
|
b.
Esposa(o)/Companheira(o)……………………………………… |
Nãoٱ
Simٱ |
|
c.
Outros familiares………………………………………………… |
Nãoٱ
Simٱ |
|
d.
Bancos, Empresas de empréstimos, ou sociedades de créditos….. |
Nãoٱ
Simٱ |
|
e.
Cartões de Crédito……………………………………………….. |
Nãoٱ
Simٱ |
|
f.
Agiotas…………………………………………………………… |
Nãoٱ
Simٱ |
|
g. Troca
de títulos, acções, certificados de aforro ou outros……….. |
Nãoٱ
Simٱ |
|
h. Venda
de propriedades ou bens pessoais………………………... |
Nãoٱ
Simٱ |
|
i. Pede
empréstimo pessoal ou passa cheques sem cobertura……… |
Nãoٱ
Simٱ |
|
j. Tem
(ou teve) uma linha de crédito com um corrector de apostas. |
Nãoٱ
Simٱ |
|
k. Tem
(ou teve) uma linha de crédito com o casino………………. |
Nãoٱ
Simٱ |
Topo
GQB
Gamblers Questionnaire Beliefs
Instruções:
Leia com atenção cada uma das seguintes afirmações e avalie o grau de
discordância ou de concordância com cada uma delas, colocando à frente da
cada afirmação um número de acordo com a seguinte escala:
1 |
2 |
3 |
4 |
5 |
6 |
7 |
Discordo Totalmente |
Discordo |
Discordo um pouco |
Nem discordo nem concordo |
Concordo um Pouco |
Concordo |
Concordo Totalmente |
1. |
Penso no jogo como um desafio………………………………………………………………….. |
|
|
2. |
O meu conhecimento e perícia no jogo contribuem para aumentar a
probabilidade de ganhar dinheiro…………………………………………………………………………………………… |
|
|
3. |
As
minhas acções e escolhas afectam o jogo no qual aposto…………………………………….. |
|
|
4. |
Se estou a jogar e a perder, devo continuar a jogar para não perder
nenhuma hipótese de ganhar………………………………………………………………………………………........... |
|
|
5. |
Devo ter em conta como apostei e ganhei no passado, de forma a poder
saber como apostar no futuro…………………………………………………………………………………………….... |
|
|
6. |
Quando jogo, e acontece que estou perto de ganhar ou perder, sinto que
se continuar a jogar irei ganhar……………………………………………………………………………………………... |
|
|
7. |
Jogar é mais do que apenas mera sorte…………………………………………………………… |
|
|
8. |
Os meus ganhos ao jogo são a prova da minha perícia e conhecimentos
relacionados com o jogo……………………………………………………………………………………………….. |
|
|
9. |
Tenho
uma técnica de sorte que uso quando jogo……………………………………………....... |
|
|
10. |
A longo
prazo, ganharei mais dinheiro do que perderei com o
jogo…………………………....... |
|
|
11. |
Embora possa estar a perder com a minha estratégia de jogo, devo
continuar com essa estratégia porque sei que no fim acabará por
resultar……………………………………………………….. |
|
|
12. |
Há certas coisas que faço quando aposto (tamborilar com os dedos um
certo número de vezes, segurar a minha moeda da sorte, fazer figas,
etc) porque aumenta a minha hipótese de
ganhar…………………………………………………………………………………………….. |
|
|
13. |
Se
perder dinheiro ao jogo, devo tentar recuperá-lo……………………………………………… |
|
|
14. |
Aqueles que não jogam muito não compreendem que o sucesso ao jogo
requer dedicação e disposição para investir algum
dinheiro………………………………………………………….. |
|
|
15. |
Onde eu consigo dinheiro para jogar não interessa, porque eu sei que
vou ganhar e poder pagar……………………………………………………………………………………………… |
|
|
16. |
Sou bastante preciso em prever quando a sorte está a
mudar…………………………………….. |
|
|
17. |
Jogar é para mim a melhor forma de sentir prazer……………………………………………….. |
|
|
18. |
Se continuar a jogar, acabarei por ter a compensação e conseguirei
ganhar dinheiro……………. |
|
|
19. |
Tenho mais capacidade e conhecimentos relacionados com o jogo do que a
maior parte das pessoas que jogam……………………………………………………………………………....... |
|
|
20. |
Quando perco ao jogo, as minhas perdas não são tão más se não disser
aos meus familiares e
amigos……………………………………………………………………………………….......... |
|
|
21. |
Devo manter a mesma aposta, ainda que não se tenha revelado a mais
acertada ultimamente, pois está destinada a
ganhar………………………………………………………………………. |
|
Topo
GSEQ
Gambling Self-Eficacy
Questionnaire
Imagine-se
numa série de situações apresentadas, relacionadas com problemas no
controlo do comportamento com o jogo. Para cada uma das situações, qual
seria o seu grau de confiança na resolução do problema, sendo o controlo
do comportamento de jogo definido em função do tempo e dinheiro gastos
directamente com esta actividade. Faça a sua avaliação conforme o menor ou
maior grau de confiança numa escala de 0 a 100, em que 0 significa
‘Menor grau de confiança’ e 100 ‘Maior Grau de Confiança’.
1. |
Se sentisse que estava
‘demasiado em baixo’………………………….…………… |
0..20.. 40.. 60.. 80.. 100 |
|
|
|
2. |
Se houvesse discussões em
casa…………………………………….……………… |
0..20.. 40.. 60.. 80.. 100 |
|
|
|
3. |
Se estivesse com problemas
com o sono…………………………….……………... |
0..20.. 40.. 60.. 80.. 100 |
|
|
|
4. |
Se tivesse uma discussão com
um amigo/a..………………………….…………….. |
0..20.. 40.. 60.. 80.. 100 |
|
|
|
5. |
Se me sentisse confiante e
descontraído……………………………….…………… |
0..20.. 40.. 60.. 80.. 100 |
|
|
|
6. |
Se
estivesse a divertir-me e quisesse sentir-me ainda melhor……………………… |
0..20.. 40.. 60.. 80.. 100 |
|
|
|
7. |
Se tivesse perdido dinheiro
no jogo num dia e sentisse que poderia vir a ganhá-lo no dia
seguinte……………………………………………………………………… |
0..20.. 40.. 60.. 80.. 100 |
|
|
|
8. |
Se estivesse num local onde
outras pessoas estivessem a jogar……………………. |
0..20.. 40.. 60.. 80.. 100 |
|
|
|
9. |
Se
questionasse o meu autocontrole sobre o jogo e quisesse testá-lo……………… |
0..20.. 40.. 60.. 80.. 100 |
|
|
|
10. |
Se
estivesse zangado em relação à forma como as coisas acontecem……………… |
0..20.. 40.. 60.. 80.. 100 |
|
|
|
11. |
Se
estivesse descontraído com um amigo e quiséssemos passar um bom
bocado…. |
0..20.. 40.. 60.. 80.. 100 |
|
|
|
12. |
Se
sentisse o meu estômago “atado em nós"……………………………………….. |
0..20.. 40.. 60.. 80.. 100 |
|
|
|
13. |
Se estivesse com amigos numa
“saída nocturna” e quisesse aumentar o meu
divertimento………………………………………………………………………… |
0..20.. 40.. 60.. 80.. 100 |
|
|
|
14. |
Se encontrasse um amigo/a que
sugerisse irmos jogar juntos……………………… |
0..20.. 40.. 60.. 80.. 100 |
|
|
|
15. |
Se tivesse subitamente um
impulso para jogar…………………………………....... |
0..20.. 40.. 60.. 80.. 100 |
|
|
|
16. |
Se quisesse provar a mim
próprio que podia apostar mais algumas vezes sem perder o
controlo……………………………………………………………………. |
0..20.. 40.. 60.. 80.. 100 |
Topo
20
20 perguntas de Jogadores Anónimos
5) Fases do jogador:
Fase ganhadora:
Neste período de tempo existem de
facto ganhos e muitas vezes as perdas são fortemente compensadas. È de
facto, o pior que pode acontecer àqueles que possuem uma predisposição a
jogar compulsivamente. Ouvem-se frequentemente frases do género “continuei
a jogar à espera de outro prémio igual àquele que me permitiu regularizar
toda a minha situação financeira e ir de férias quinze dias com a minha
mulher para as Maldivas”. Estes prémios que acontecem uma ou outra vez
nesta fase, correspondendo a vários meses de ordenado, criam no jogador um
traço mnésico intenso muito ligado a um sentimento de prazer, força,
invencibilidade que torna difícil impedir o regresso ao local do jogo.
Apesar de ser uma fase de jogo “recreativa”, o jogador já sente emoções
intensas, tanto ao nível do divertimento e euforia como do “alheamento,
escape e distanciamento” dos problemas e dificuldades do dia a dia. É
neste período que se reforçam crenças sobre as suas próprias competências
e habilidade no que diz respeito a ganhar. As perdas são sempre alvo de
uma projecção da culpa para o “sistema”, os empregados, os maus conselhos,
a hora, a máquina em que estão, etc.
Nesta fase já se vislumbram
comportamentos pouco ajustados como, por exemplo; resolver conflitos
conjugais/familiares indo ambos jogar e resolve-se aparentemente o
problema, quando se ia jogar ao sábado e de repente já vão sexta-feira,
sábado e quarta-feira; quando optam por não ir passar o fim de semana fora
para poder apostar mais, ou só vão para algum sítio se houver por perto um
local de jogo; etc. No entanto, as consequências negativas são pouco
significativas; antes pelo contrário, as famílias até aprovam, porque o
vêem a pessoa bem disposta e a voltar algumas vezes com dinheiro que é
alegremente distribuído.
Topo
Fase perdedora ou do resgate:
Esta fase segue-se à
anterior, e tanto pode durar meses como pode durar anos, dependendo das
características da pessoa e das circunstâncias. Lembramos a relação
encontrada invariavelmente nas investigações, entre proximidade de um
local de jogo e o aumento de jogadores abusivos e dependentes nessa área
geográfica.
Este período também é conhecido como
“do resgate” porque incide numa característica primordial do jogador, que
consiste em querer recuperar o dinheiro perdido anteriormente... mediante
novas apostas. Esta compulsão e impulsividade fazem com que o adicto ao
jogo gaste mais dinheiro do que estava previsto. Frequentemente deixam os
cartões de crédito no carro para se impedirem de despender o que não
podem, como se tal artefacto fosse eficaz. É óbvio que mal se vêem sem
dinheiro, vão arranjar dinheiro onde quer que seja. O facto de os locais
de jogo facilitarem o acesso ao dinheiro não ajuda em nada a diminuição do
prejuízo do jogador compulsivo.
Nesta fase, o prejuízo torna-se
francamente superior aos ganhos e o orçamento mensal da família entra em
colapso arrastando, juntamente com ausências do lar prolongadas, problemas
a nível financeiro, profissional, conjugal e familiar. A própria
auto-estima tão em alta, começa a estar francamente danificada. Este é um
rude golpe para o narcisismo, o egocentrismo, a megalomania muito típica
dos jogadores. A obsessão por jogar e por jogar para recuperar o dinheiro
perdido torna-se cada vez mais intensa. A par da compulsão, surgem
sentimentos de irritabilidade, depressão, culpa, vergonha que é na maior
parte das vezes, muito bem camuflado para o exterior, chegando por vezes a
iludir a própria família. O equilíbrio é mantido à custa de empréstimos,
que permitem ao jogador continuar na espiral, mas a ansiedade aumenta, o
medo de perder e não ter saída torna-se mais presente na mesma medida em
que reforça crenças relativas a ganhos que lhe aumentam a excitação e
adrenalina. A pressão começa a tornar-se insuportável.
As prioridades da pessoa começam a
inverter-se, existe uma maior despreocupação perante os entes queridos,
surgem mentiras sistemáticas para encobrir estas actividades, recorre-se a
amigos para se desembaraçar da falta de liquidez para poder jogar e pagar
dívidas de jogo. É o início de uma certa reactividade da família, que lhe
retira meios financeiros, confronta com as ausências, sugere soluções para
parar de jogar, começa a fazer diversos tipos de ameaças, etc. mas, são
sugestões infrutíferas na maior parte das vezes. A reacção é pouco firme
face à compulsão do jogador (as crenças, como a do resgate, ainda estão
muito vivas) que ainda se sente pouco preparado e motivado para pedir
ajuda no sentido de parar de jogar. Esta “pescadinha de rabo na boca” em
que perde, pede emprestado para ir resgatar as perdas, e volta a jogar, e
a pedir, etc., pode durar vários anos até que se entra na última fase.
Topo
Fase do Desespero:
Nesta fase encontra-se
instalada uma verdadeira compulsão e obsessão a tempo inteiro, que vai
muito para além da impulsividade que caracteriza esta patologia. Todas as
energias estão centradas no “ter” dinheiro para continuar a jogar o que é
de certa forma uma forma paralela de jogo, pois dá-se uma vivência do tudo
ou nada, do ir mais longe do que outrora (desfalques, empréstimos a juros
altíssimos, esquemas, etc.), que leva a limites emocionais próximos do
síndroma de burnout.
Todo o funcionamento da pessoa está
comprometido, fruto da hi
sibilidade, irracionalidade, stress,
irritabilidade, desespero que se instalou. As insónias, a produtividade e
assiduidade, a presença em termos conjugais e sexuais, o envolvimento
familiar e social, a própria condição espiritual (perda de auto-estima,
dignidade e respeito próprio) determinam uma espiral muito prejudicial e
destrutiva. Um desespero assente na fuga para frente e no medo de não ter
mais hipóteses de poder jogar. Se não arranja dinheiro para apostar vai
sentir-se intensamente deprimido em paralelo com uma forte obsessão
centrada no “arranjar” mais dinheiro. Frequentemente encontram dinheiro
para pagar dívidas mas assim que o têm, vão jogar outra vez para poderem,
não só pagar empréstimos como continuarem a jogar e mostrarem a sua
“superioridade”, ou que foram simplesmente vítimas de um azar temporário.
É verdade que na maior parte dos casos os jogadores acreditam
profundamente nesta ilusão (crença). O único contacto social que
desenvolvem é com os “amigos” de jogo. Não é raro, no meio de tanta
disfuncionalidade, sentirem que têm um problema de natureza mental.
É nesta fase que se podem dar casos
de ideação suicida em 20% dos jogadores, dos quais 10% passam ao acto.
Em geral, esta fase termina em
hospitais (enfartes, desastres, etc.), prisões (desfalques, falsificações,
empréstimos não pagos), morte (suicídio, dívidas de alto risco não pagas,
enfartes, etc.) ou no pedir de ajuda que pode significar o início de
recuperação.
Topo
Fase da recuperação mediante
abstinência:
Só inicia esta fase quem
passou pela última fase ou encontrou uma motivação muito forte que lhe
permita estar uns meses sem jogar; tempo que lhe permite perceber toda
aquela dinâmica e criar uma estrutura que o mantenha afastado de qualquer
tipo de aposta. A solução mais fiável e segura para um jogador patológico
é a abstinência total de qualquer tipo de aposta a dinheiro. O jogo a
dinheiro, mesmo que num contexto social pode acordar o tigre adormecido.
Está estudado, que existe uma componente bioneurológica na activação da
impulsividade, compulsão, obsessão quando se estimulam determinados
circuitos utilizados anteriormente nas fases de jogo activo (ausência de
receptores D2, níveis anormais de serotonina ou dopamina, etc.).
Esta fase é por vezes contraditória,
pois se por um lado o jogador inicia uma libertação de todo aquele
condicionamento, sentindo um contentamento e euforia intensos, por outro
lado, tem vontade de voltar a jogar e tem de gerir todas as consequências
do seu jogo activo. O jogador sente uma grande pressão e medo perante a
sua débil condição financeira, a sua relação conjugal e familiar onde
reina a desconfiança e descrédito, o desemprego, marginalização social,
etc.
Existem medos muito
específicos nesta população. Existe o medo de rejeição tanto ao nível de
familiares, como dos colegas de trabalhos e amigos. Dá-se frequentemente a
tentação de ultrapassar esta eventual “não aceitação” dos outros pela
tentativa de controlo financeiro. O dinheiro é fonte de segurança, de
pertença e poder. Podem assim mostrar um “outro que não eles mesmos” pois
sentem que se mostrassem como realmente são ninguém gostaria deles.
Curiosamente, o dinheiro é fruto de todo este investimento, mas também é
frequentemente alvo de um profundo desprezo. Em parte pelas
características de grandiosidade e imagem, mas também pela facilidade com
que gastavam grandes quantidades em curtos espaços de tempo. Um paciente
sem grandes posses, em “recuperação” afirmou (em pleno 2007), que só
voltava a jogar quando tivesse pelo menos 750 euros, pois de oura forma
nem dá para aquecer. Esta sua valorização de imagem “big shot” a que
atribui tanta importância traz-lhe por outro lado, um grande medo de
perder o controlo, de fazer figuras ridículas por alguma razão. Este pavor
de perder o controlo, afasta-os por vezes de relações de compromisso,
sobretudo a nível conjugal.
Devido ao modo de vida muito intenso
e instável, que levaram, o medo de serem descobertos e acusados, ou o medo
de terem alguma perturbação mental, evidencia-se de forma evidente nas
primeiras fases de recuperação (Lorenz, 1989).
Mantêm frequentemente, padrões
antigos como mentir e manipular, mas também aderir a processos de apostas
mentais sem dinheiro (o clube x vai ganhar ao clube y por 3-2...)
procurando grande satisfação na confirmação da probabilidade. São estes,
entre outros factores, que são preditivos de um processo de recaída, ao
qual o terapeuta deve estar muito atento. O terapeuta deverá ter especial
atenção ao habitual egocentrismo, à tentativa sistemática de desafio e
manipulação face ao próprio terapeuta, à fraca capacidade empática, à
debilitada capacidade de identificação e gestão de sentimentos que
caracteriza esta fase inicial do tratamento, à tendência para a depressão,
e não só...
Custer e Milt (1984), referiam no
âmbito do programa de tratamento que elaboraram o seguinte: ”As causas
profundas podem ser genéticas, mas possivelmente, foi influenciado por uma
indiferença parental, negligência, hostilidade ou outros tipos de abusos,
que produziram baixa auto-estima, uma imagem de si pobre, uma inabilidade
para lidar com os problemas da vida e um desejo de encontrar alívio na
fantasia e ilusão”.
Esta fase de recuperação é muitas
vezes ignorada, por falta de conhecimento das pessoas, dos técnicos e dos
media. É também uma fase difícil, demorada, com avanços e recuos em que se
devem gerir várias frentes em simultâneo, a fim de ter sucesso.
Topo
II) A RECUPERAÇÃO do JOGADOR:
1) Uma adicção diferente das outras:
Na sua base, a adicção ao jogo tem
muitas semelhanças com outras dependências, em especial, com adicções sem
substancias como as compras; o sexo e amor; a codependência ou mesmo a
internet.
De facto, esta adicção não arrasta
consequências evidentes noutras dependências, como, por exemplo, cheiro a
álcool, olhos encarnados, embriaguez, degradação física, síndroma de
abstinência ou tolerância evidentes. Existe “apenas”, entre outros
sintomas, degradação física devido ao sono perturbado, à má alimentação e
a todos os efeitos derivados de um stress intenso. Ao nível da
abstinência, dá-se uma forte depressão ou irritabilidade se houver uma
impossibilidade de jogar nos elevados parâmetros habituais. Dá-se uma
necessidade de efectuar apostas mais elevadas a fim de obter o mesmo
efeito de prazer. São, no entanto, consequências “facilmente disfarçáveis”
pelos jogadores.
Acontece, como nas outras
dependências com substância, uma procura tanto da euforia como do
alheamento, só que em função dum comportamento, duma situação. Poderá
dizer-se que existem várias substâncias que são libertas, no e pelo
cérebro do jogador, em função de uma determinada acção; mas é uma
substância interna como as endorfinas (Anderson & Brown, 1984).
Se bem que a base da adicção seja
muito semelhante a todo o tipo de dependências, surgem duas diferenças
essenciais em relação ao jogo patológico; a ausência de substância e as
características do jogador. Como foi visto anteriormente no capítulo das
características, o jogador tipo tende a ser muito competitivo, enérgico,
inquieto, que se entedia facilmente, (DSM-IV-R, 2002). São em geral
pessoas com licenciaturas, profissões com cargos de responsabilidade, com
boas competências sociais, que procuram muito a aprovação dos outros, etc.
Pode considerar-se como outra
diferença, a dificuldade acrescida em termos do início da abstinência,
devido talvez às distorções cognitivas que lhes são intrínsecas, ao passo
que nas outras dependências estas dificuldades estão muito ligadas ao
consumo da substância propriamente dita, ou seja, não existiam previamente
à fase de abuso ou dependência.
Outra diferença em termos
específicos, è o facto da comorbilidade diagnóstica em relação à
dependência de álcool e drogas. Mais de metade dos jogadores patológicos
consomem álcool e drogas de forma abusiva, ao passo que os dependentes de
álcool e drogas jogam de forma apenas recreativa, ou nem sequer jogam.
As distorções cognitivas ao nível das
crenças de sorte e perseverança; ilusão de controlo; percepção de
auto-eficácia; e de recuperar o tempo perdido são francamente superiores
em relação, tanto a outras adicções como em relação à população geral,
(ver seminário de investigação sobre comorbilidades diagnóstica no
comportamento de jogo compulsivo). Continuam a efectuar-se inúmeras
investigações ao nível das comorbilidades diagnósticas com perturbações
psiquiátricas (personalidade anti-social, depressão, ansiedade, etc.).
Topo
2) Tratamento:
Uma característica do jogador
compulsivo que dificulta o seu tratamento, é a sua invisibilidade. É muito
difícil para as pessoas que estão por perto, conseguir perceber os
sintomas desta doença por duas razões. A primeira porque não existe
alteração do estado de humor (não aparece embriagado ou pedrado, não tem
ressaca física óbvia, etc.). A segunda razão prende-se com características
próprias da maioria dos jogadores que são os seguintes: têm óptimos dons
de manipulação, tanto dos outros como da sua própria imagem; conseguem
negar/evitar sentimentos de intensa depressão e angústia após perdas; são
despachados e eficazes na resolução de problemas financeiros e outros; têm
boas competências sociais (apesar de uma insegurança e baixa auto-estima
“crónica”); sendo muitas vezes profissionais com cargos de
responsabilidade têm frequentemente bons alibis, possuem história de
sucesso profissional, etc.
Topo
a) Centros de tratamento:
Em Portugal, infelizmente não
existem, nem centros de tratamento para jogadores patológicos, nem centros
especializados para adicções sem substância. Estes centros tratamentos são
úteis, não só pela recuperação que podem proporcionar aos seus utentes,
mas também pelo conhecimento que produzem sobre esta população. É um
produzir de saber ao nível das características, das diferenças e
comorbilidades com outras substâncias e perturbações mentais que
caracterizam um determinado segmento dos jogadores (os que têm vontade de
resolver o problema).
Custer iniciou em 1971, a pedido dos
Jogadores Anónimos de Ohio (USA), um modelo de tratamento inspirado em
programas para dependentes alcoólicos, só que desenvolvido para adictos ao
jogo numa base de “tentativa-erro”. Ainda hoje, estes tratamentos se
centram em terapias individuais e de grupo; palestras temáticas;
actividades terapêuticas lúdicas (filmes, jogos de confiança, etc.);
trabalhos escritos (autobiografias, desenvolvimento de temas como negação,
perfeccionismo, raiva, etc.) e para os centros com base no modelo
Minnesota, existe o encaminhamento para os grupos de auto-ajuda dos
Jogadores Anónimos.
Estes centros não só utilizam
abordagens combinadas, como são formadas por equipes multidisciplinares
formadas por: psiquiatras, psicólogos, técnicos de aconselhamento com
formação específica em jogo patológico (alguns dele são jogadores em
recuperação), assistentes sociais e monitores para o serviço nocturno.
Estes centros são úteis em casos
de emergência e visam, sobretudo: a
estabilização dos sintomas físicos; combater a ideação suicida; efectuar
um diagnóstico prévio que tem especial atenção a consumos paralelos de
álcool e drogas ou comorbilidades psiquiátricas e por fim proceder ao
encaminhamento para a instituição mais adequada.
O centro de tratamento
característico visa as seguintes prioridades:
parar de jogar; reforço de confiança e auto-estima; desenvolvimento de
outras formas de gratificação e prazer a fim de evitar o vazio deixado
pela abstinência do jogo; estabelecer um plano realista de objectivos; um
desses objectivos é a um plano de pagamento de dívidas; tentar o
envolvimento da família no tratamento e outras entidades disponíveis;
tentar que haja uma “ligação” e integração com pares e equipe técnica;
perceber distorções cognitivas e mecanismos de defesa mais utilizados;
encaminhar para um tratamento ambulatório e frequência de grupos de
auto-ajuda.
Os tratamentos em ambulatório são uma opção ao internamento e são seguramente o percurso ideal para quem
sai de um centro onde “viveu” seja 28 dias, seja três meses. O ambulatório
utiliza uma metodologia parecida com a do internamento. A grande vantagem
é que o paciente está em contacto com a realidade do dia a dia e pode
assim, ir ajustando os seus antigos padrões de pensamento e comportamento
à necessidades da abstinência. Utilizam-se na procura de soluções e
alternativas para o paciente: terapias de individuais e de grupo, sessões
com a família e em especial com o cônjuge, por vezes directores ou colegas
de trabalho, palestras temáticas, jogos terapêuticos, trabalhos escritos
específicos sobre o orgulho, grandiosidade, negação, objectivos, etc., e
por vezes sessões de relaxamento. Lembra-se que este tipo de tratamento
ambulatório implica uma relativa estabilidade do paciente e, sobretudo,
uma forte motivação para a abstinência, sugerindo-se vivamente que siga as
reuniões dos grupos de auto-ajuda de jogadores anónimos.
Topo
b) Modelos explicativos;
psicoterapias e suas diferentes abordagens:
Poderá dizer-se que existem quase
tantas formas de tratamento para o jogo patológico, como existem modelos
explicativos representando as diferentes abordagens psicoterapêuticas. Não
acredito, nem utilizo apenas uma abordagem. Rendo-me às necessidades
individuais de cada paciente, trilhando um caminho cuja base é cognitiva,
mas vai beber a conceitos psicanalíticos, comportamentalistas e
sistémicos. Todos os modelos contribuem, recorrendo inclusive á medicação
em determinados casos, sob orientação de médicos ou psiquiatras com
formação no campo das adicções.
O modelo
da adicção ou da dependência é aquele que me
parece melhor circunscrever a problemática do jogo patológico. Este
modelo, não exclui, antes pelo contrário, as abordagens que se seguem
neste capítulo. É talvez numa perspectiva multidisciplinar que se consegue
cercar de forma mais exaustiva a amplitude deste problema que passa pela:
predisposição genética; aprendizagem em meio familiar e social; pelos
traços de personalidade; pelas áreas conjugais, familiares, sociais,
profissionais e também espirituais ao nível de princípios e valores.
Os critérios utilizados pelo DSM-IV
ou pelo ICD-10 apontam nesta direcção, apesar de se situarem na
perturbação do controlo dos impulsos não classificados noutro lugar.
Existem nestes critérios; o síndroma de tolerância em que se apostam
quantidades cada vez maiores para obter o mesmo prazer; o síndroma de
abstinência em que o jogador tem irritabilidade, depressão e até sintomas
físicos se não está possibilitado de apostar; sente incapacidade para
resistir ao impulso de jogar; sente grande alívio ou prazer se joga; esta
actividade traz problemas significativos à sua vida nas áreas conjugais,
profissionais, sociais e espirituais e representa uma grande instabilidade
na sua vida pessoal. Não se pode concluir destes critérios que esta
dependência seja igual, ou sequer parecida a outras. Tem uma base comum ao
nível dos factores anteriormente vistos, mas muito diferente por várias
razões: é uma adicção sem substância; as próprias características desta
população; a sua invisibilidade; as distorções cognitivas, a
impulsividade, etc.
Os modelos terapêuticos que parecem
melhor funcionar, e também aqueles que são mais difundidos, baseiam-se nos
programas para outras dependências sem substância como as compras, o sexo
ou a própria codependência, que por sua vez tiveram origem nos programas
para dependências com substâncias (ver centros de tratamento).
O modelo
psicanalítico assenta na sua base habitual.
Freud estudou com grande empenho as características destas pessoas.
Elaborou um conhecido ensaio “Dostoevsky and parricide” baseado na
interpretação de uma descrição “bastante autobiográfica” deste autor no
seu livro “O Jogador” em 1866. A sua principal conclusão foi que existe no
jogador um desejo não consciente de perder como forma de punição, que
aliviaria sentimentos de culpa por atitudes e/ou desafios cometidos contra
os pais numa infância precoce. Esta dinâmica seria transportada no
presente na seguinte forma: tenho atitudes pouco próprias para um filho
(jogar), este desafio traz-me culpa/vergonha (logo devo perder para me
submeter à autoridade parental que é simbolizada pelas implacáveis leis
das probabilidades), mas acabo sempre por me revoltar, pois não me sinto
bem nesta situação (pulsão de morte) e utilizo a estratégia de sempre que
consiste em desafiar novamente (pulsão de vida).
Dentro desta teoria surgem outras
ligadas ao onanismo, ao egocentrismo e princípio de realidade da criança,
á libido, relação édipiana, entre outras.
Se por um lado estas perspectivas
podem ser explicativas, revelando algumas características presentes no
jogador, esta abordagem psicoterapêutica apresenta pouca produtividade e
eficácia por ser uma técnica demorada, com poucos resultados práticos e
rápidos que a maioria dos casos necessita.
O modelo integrador de McCormick e
Ramírez formula um resumo interessante dos factores etiológicos do
jogo patológico. Seria em primeiro lugar, uma predisposição biológica ou
genética transmitida hereditariamente; um fracasso na socialização e no
desenvolvimento de competências psicossociais que se centraram numa
atitude mais competitiva e menos cooperante. Por outro lado, existiria uma
vivência de situações stressantes nas primeiras etapas da vida, assim como
um restabelecimento recente com situações e eventos stressantes. O jogador
patológico obedeceria a um determinado tipo de personalidade e poderia ter
possíveis perturbações da personalidade (Villa, R. & Canal A., 1998).
Seriam estas as principais áreas a trabalhar no contexto terapêutico.
A abordem comportamentalista apresenta um contexto muito diferente, centrada no “desaprender”,
quebrando a resistência à extinção de mecanismos solidamente enraizados.
Muitos destes comportamentos tiveram um reforço positivo muito forte
(ganho financeiro e na auto-estima do jogador). Segundo Skinner (1953), a
grande armadilha do jogador está na irrelevância que este dá ao longo
prazo, ou seja; centra-se no reforço positivo que chegará rapidamente, não
se importando com o facto de que o prémio bom poderá demorar meses, anos,
ou simplesmente não acontecer...
A terapia aversiva teve,
supostamente, algum sucesso nos ano 60 e 70, tentando a aprendizagem de um
comportamento novo, com base na atribuição de um estímulo desagradável
(choques eléctricos).
Alguns autores apregoam a
aprendizagem do jogar social, em vez da tentativa de erradicação do
comportamento. A abstinência total de qualquer tipo de aposta a dinheiro é
um objectivo mais difícil, mas é, provavelmente, o mais seguro na
prevenção de recaídas.
Lembrando que existem traços mnésicos
muito intensos em que reflexos condicionados, associações de ideias a
locais, situações ou pessoas podem fazer disparar o impulso para jogar.
É da mesma forma importante perceber,
quais eram os estímulos antigos que conduziam ao acto de jogar a fim de se
proceder à sua consciencialização e posterior dessensibilização.
A abordagem cognitiva, que
cada vez é mais utilizada em sintonia com a comportamentalista incide,
sobretudo no tomar consciência e “desmontar” das típicas distorções
cognitivas (crenças) apresentadas pelo jogador patológico.
Como foi visto anteriormente, ou pode
ser visto nos acetatos relativos à conferência “crenças e solidão”, existe
um número infindável de crenças profundamente enraizados no jogador
compulsivo.
Damos estes exemplos, entre muitos:
“Sou mesmo especial e diferente”; “ tenho dons invulgares que me fazem
ganhar”, “vou poder viver disto em vez de trabalhar por um mísero ordenado
como todos os outros”; “Aplicando esta estratégia vou ganhar muito
dinheiro para mim e para a minha família”; “vou só ver jogar para me
distrair”; “ vou só jogar um pouco e assim que ganhar a quantidade
desejada venho logo embora”, “ para me proteger e não jogar muito até
deixo os cartões de crédito no carro”; “sinto que hoje é o meu dia de
sorte”; “consigo dar a volta às probabilidades”; “tenho que ir lá reaver o
dinheiro perdido pois é a única forma de resolver todos os problemas de
uma vez”, “aqueles idiotas que lá estavam a olhar é que me deram azar”;
“jogar é a minha forma de me realizar e cumprir o meu potencial”, “jogar é
a verdadeira forma de me divertir”, etc.
A base da psicoterapia cognitiva está
orientada para a correcção destas crenças que são, na maior parte das
vezes irracionais. Estas distorções cognitivas acompanham o jogador, tanto
durante o jogo, como antes e depois. Têm directamente a ver com a sua
personalidade e com a sua perspectiva do mundo. O jogador faz uma
utilização muito eficaz (contra si mesmo) de mecanismo de defesa como a
intelectualização/racionalização; negação; manipulação; minimização, entre
outros. Segundo Marlatt (1986), muito destes factores têm origem num meio
social e familiar, em que o dinheiro e o poder eram muito valorizados em
simultâneo com determinados traços de personalidade como a extroversão,
hiperactividade, liderança, etc. É bom lembrar neste caso também, que o
crescimento numa família disfuncional, em especial se um dos progenitores
é um adicto ao jogo (ou outra dependência), implica uma predisposição
muito superior.
O primeiro passo em relação ao
tratamento, consiste na avaliação da motivação para a abstinência e no
reconhecimento das consequências que o jogo compulsivo acarretou na sua
vida conjugal, profissional, social, etc. Posteriormente é importante
proceder à correcção das distorções cognitivas, analisando-as, tomando
consciência delas, aferindo-as com a realidade e com a construção mental
que o jogador elaborou para si. Estes exercícios passam pela verbalização
desses conceitos; pela percepção que têm da vida, tanto em relação ao jogo
como a outras áreas; na explicação do que são verdadeiramente
probabilidades (de prémio), no contrariar de mecanismos de defesa
utilizados exageradamente; perceber que estímulos (situações, pensamentos,
pessoas, sentimentos, locais) despoletam vontades de jogar, etc. Existem
outras técnicas muito úteis como o role-play, as sessões de relaxamento,
leituras e exercícios específicos sobre temas como a auto-estima, a
negação, o perfeccionismo, o orgulho, a vergonha e culpa, etc.
Após a clarificação destes conceitos,
e duma “personalização” a cada caso, o terapeuta deverá encarregar-se em
conjunto com o paciente, de verificar se a “fuga à realidade” é ou não
mantida ou manipulada de alguma forma (o que é frequente). Não é por
acaso, que existe um número elevado de desistências após as primeiras
sessões de trabalho efectivo. A família tem neste processo um papel
fundamental, pois ao integrar as sessões terapêuticas de forma regular,
vai permitir um aprofundar da consciência do jogador e enriquecer a
perspectiva do terapeuta. A mulher, filho, irmão, pais estão em permanente
contacto com o paciente e se estiverem familiarizados com a dinâmica do
tratamento, podem ter um contributo fulcral, tanto na correcção das
crenças, como no reforço positivo das atitudes mais apropriadas do
paciente.
Deve tentar-se em conjunto com o
tratamento mais centrado na problemática do jogo, um desenvolvimento das competências psicossociais que será um garante de qualidade de vida
e de prevenção de recaída (desenvolvimento de: assertividade, tomada de
decisões, resolução de problemas, planificação; gestão de stress e
sentimentos, etc.).
Salienta-se de novo a importância de
uma abordagem multidisciplinar, face à amplitude das diferentes formas e
contextos desta problemática. Esta abordagem multifacetada inclui
perspectivas, técnicas e modelos explicativos pertencentes às diferentes
áreas que vimos anteriormente. É sempre importante lembrar que se está ao
serviço de quem precisa de ajuda, e não de uma ou outra abordagem...
Topo
c) Jogadores Anónimos e grupos para
familiares:
Jogadores Anónimos (Gamblers
Anonymous), são uma associação internacional sem fins lucrativos,
iniciados em 1957, compostos exclusivamente por voluntários, que têm ou
tiveram um problema de jogo compulsivo e visam obter e manter a
abstinência de qualquer tipo de aposta a dinheiro. Estes grupos são
inspirados nos 12 passos de Alcoólicos Anónimos e seguem os mesmos
princípios de abstinência total em relação ao jogo; de incapacidade de
controlar o jogo activo; de evitar locais, situações e pessoas ligadas ao
jogo; que a melhor prevenção à recaída é uma frequência assídua destas
reuniões, não dizer nunca vivendo a abstinência um dia de cada vez, etc.
As grandes vantagens destes grupos de
auto-ajuda são: a aceitação que existe entre membros sem julgamento de
valores; a identificação, pois todos têm o mesmo problema e percursos de
vida muito parecidos; sentirem-se integrados provocando um sentimento de
pertença e integração; estarem orientados num estilo de vida; ser um local
descontraído onde podem partilhar/”desabafar” os bons e maus momentos do
presente e passado; o facto dos programa de 12 passos constituir um plano
de mudança e crescimento pessoal que vai para além do simples facto de
parar de jogar.
Centros de tratamento, terapeutas,
instituições ligadas a esta problemática são quase unânimes no que
respeita às vantagens destes grupos. Infelizmente as taxas de abandono são
elevadas por várias razões, entre as quais citamos algumas: existência de
alguns “rituais”, pessoas muito dogmáticas e depressivas, pouca empatia
com o recém chegado, choque de personalidades, distância a percorrer, etc.
Existem também os Gam-Anon, que são
uma associação idêntica que visa o apoio e orientação aos familiares e
amigos de jogadores compulsivos, quer estejam ou não em abstinência.
Os Gam A-Teen são grupos vocacionados
para jovens jogadores compulsivos, assim como já existem grupos para
filhos adultos de jogadores, pois estes transportam características muito
próprias e possuem um potencial elevado para desenvolver dependência de
jogo ou outro tipo de adicção.
Topo
d) Comorbilidades diagnósticas ao
nível de outras dependências e perturbações mentais:
Cada vez mais, se comprova a
existência de outros problemas no jogador patológico, tanto ao nível de
outras dependências, como ao nível de perturbações da personalidade, como
de problemas relacionados com ansiedade ou depressão.
Um estudo efectuado com dependentes
alcoólicos e toxicodependentes no South Oaks Hospital, revelou que 20%
destes tinham problemas relacionados com comportamentos abusivos de jogo e
metade destes eram jogadores patológicos.
A minha pesquisa de seminário de
investigação sobre comorbilidades diagnósticas foi inconclusiva quanto a
perturbações da personalidade ou da ansiedade, mas evidenciou consumos de
álcool e drogas em mais de metade dos jogadores patológicos no activo, e
em mais de um terço dos jogadores patológicos em recuperação.
Bland et al (1993) revelam num estudo
Canadiano que 63% dos jogadores possuem uma dependência alcoólica e 23%
estariam dependentes de outras substâncias.
Ciarrochi e Richardson (1989) num
estudo a jogadores anónimos dos Estados Unidos, revela que : 34% abusara
de álcool, 6% abusara de drogas e 31% abusara de álcool e drogas.
Num trabalho de Lesieur (1998), sobre
50 mulheres pertencentes a jogadores anónimos de Nova York, faz-se
referência às seguintes comorbilidade: 24% seriam compradoras compulsivas;
20% seriam “comedoras compulsivas (compulsive overeaters) e 12 % com
possível dependência a nível sexual.
A personalidade anti-social surge
muito representada nesta população. Bland et al (1993) chega a encontrar
até 40% da amostra. Blaszczynski e conaghy (1994) revela 15% de uma
amostra de 306 jogadores australianos. Tanto neste estudo, como noutros,
convém sempre verificar se o inquérito não foi feito durante a fase activa
de jogo, ou logo a seguir, pois a instabilidade a que o jogador é sujeita
pode enviesar os dados.
Problemas de humor, ansiedade e
depressão surgem muito representados em vários estudos, como por exemplo:
McCormick et al (1984) aponta para 76% com um episódio depressivo major,
38% com hipomania e 8% com pelo menos um episódio de mania. Este autor
salienta que jogar parecia servir, como o único antidepressivo que
funcionava e que também era frequentemente resultado de episódios
traumáticos. Linden, Pope & Jonas (1986) encontraram na população estudada
que 76% já tinha tido um episódio depressivo, 52% com episódios
depressivos recorrentes e 20% com ataques de pânico. Blaszczynski e
conaghy (1989) referem, que valores elevados de stress e depressão, estão
relacionados com o aumento da intensidade do comportamento de jogo
compulsivo. Verificaram que jogar servia como antidepressor, mas também
representava um mau ajustamento de estratégia de coping.
A tentativa de suicídio e a
ideação suicida estão muito presentes na vida
do jogador patológico. Numa pesquisa de Frank, Lester e Wexler (1991), em
152 membros de jogadores anónimos nos USA; 13% tentaram o suicídio, 48%
consideram fazê-lo. Naqueles que tinham historial de tentativa de
suicídio, verificou-se que: tinham começado a jogar antes dos 18 anos de
idade; tinham dificuldades nos relacionamentos; tinham familiares com
problemas de consumo de substâncias alteradoras do humor e tinham cometido
ilegalidades fruto do jogar compulsivo. Outros estudos apontam até aos 20%
na tentativa de suicídio.
Topo
e) A família e o jogador:
A família é frequentemente a
primeira, a saber, mas última a perceber e a realizar a dimensão do
problema. Este facto deve-se à negação que é um mecanismo de defesa que
impede de aceitar o alcance de todas as consequências a nível financeiro,
familiar, conjugal, profissional, etc. que o jogo compulsivo arrasta.
Outro factor que atrasa e entrada no processo de recuperação do jogador é
a codependência de alguns, senão todos os elementos do núcleo familiar. A
família tenta ajudar, mas em geral, torna-se permissiva ou reage, mas é
incapaz de manter as novas regras estipuladas. A falta de orientação e de
conhecimento remete muitas vezes ao prolongamento de uma situação que vai
sempre piorar, enquanto não forem tomadas medidas eficazes. Por vezes o
estigma social, a vergonha daí decorrente, faz com que este assunto seja
um segredo de família guardado a sete chaves, a ponto de se recusar
qualquer forma de ajuda; seja de jogadores anónimos ou de cariz
profissional.
Muitas vezes o jogo é quase uma
tradição de família em que alguns podem ter abusado, mas a maioria joga
recreativamente e alarma-se menos, pois está muito habituada a este
ambiente. Muitas vezes o jogador tem origem em famílias disfuncionais em
que o pai era ou é alcoólico, jogador, toxicodependente, ou uma família
onde não havia regras, papeis e funções bem definidas, não existia
expressão de afectos, onde havia excesso de autoridade ou uma grande
permissividade, etc. Estas características familiares vão transformar-se
em padrões de comportamento e pensamento que se tornam num terreno fértil
para o desenvolvimento de adicções que vão de encontro à personalidade
própria de cada um.
Convém lembrar que o jogador tem em
geral óptimos dons de manipulação e uma sensibilidade emocional forte que
lhe permite ir ajustando estes factores aos seus interesses que são
essencialmente dois: a) arranjar dinheiro e b) para assim continuar a
jogar...
A nível conjugal as consequências
também são devastadoras. Muitas vezes o casal divertia-se m conjunto e
frequentemente um dos dois só jogava recreativamente, até que por força do
hábito e da exposição àqueles comportamentos e sentimentos intensos acaba
por se tornar jogador problemático também. Não é raro o cônjuge pensar que
existe uma amante, devido ao tempo e dinheiro despendido fora de casa em
conjunto com uma atitude instável e distante. Em geral existe uma
predisposição para ajudar, por vezes demais, chegando á facilitação pura e
simples. Só ao fim de muitas promessas quebradas é que existem resoluções
mais determinadas assentes numa atitude mais assertiva e firme. No
entanto, como vimos anteriormente, é fácil o cônjuge do jogador perder-se
nas dúvidas sobre a correcção das suas decisões, afectadas por um desgaste
emocional muito violento.
Estudos apontam para uma maior
predisposição de filhos de jogadores se tornarem eles próprios jogadores,
ou alvo de outras adicções a substâncias ou da “simples” codependência.
Isto acontece devido a uma eventual predisposição genética, mas também
devido à vivência de um ambiente familiar disfuncional.
Como ajudar alguém que tem na sua
família um jogador compulsivo: aprender o mais
possível sobre este tema do jogo; falar com alguém que saiba minimamente
do assunto; desabafar todos pensamentos e sentimentos decorrentes da
situação com alguém de confiança; pedir ajuda e apoio, pois vivem uma
instabilidade e confusão muito fortes a todos os níveis; proteger as suas
finanças ao evitar empréstimos ou qualquer tipo de forma de acesso fácil
ao jogador; se houver qualquer tipo de negligência ou abuso contacte
alguém de confiança, a segurança social ou alguém especializado no
assunto.
Se tiver um amigo com este
problema experimente: ser claro nas suas
preocupações; fale por si; saiba ouvir; seja objectivo no que pensa fazer
e não fazer (emprestar dinheiro...); utilize exemplos específicos em vez
de generalidades; diga como se sente face aos comportamentos dele; seja
positivo; consciencialize-se da resistência e indiferença que possa
surgir; mantenha-se centrado no problema; respeite limites sobre a
liberdade da pessoa seguir o rumo que escolhe, dê informações precisas e:
Evite:
julgamentos de valores; ameaças ou culpabilização; evite a tentação de ser
o terapeuta; emprestar dinheiro; personalizar a eventual resistência que
surgirá; criar expectativas numa mudança rápida ou em agradecimentos
(lembre-se que jogar é actividade mais desejada e importante do da pessoa
naquela fase).
Topo
f) O Jogador e a sua actividade
profissional:
Como vimos anteriormente o jogador
compulsivo tem em geral, características que o distinguem de outras
adicções, manifestando-se na sua actividade profissional. São postos de
responsabilidade, de chefia, empresários, profissões liberais (advogados,
médicos, gestores, etc.) que muitas vezes lhe permitem uma certa
flexibilidade da gestão do tempo, assim como acesso a dinheiro (que não
lhes pertence). Existem frequentemente; atrasos, incumprimentos nos
prazos, conflitos dada a sua irritabilidade, assiduidade instável,
desmarcação de reuniões, reduzida produtividade (fraca concentração e
produtividade), pedidos de vales de empréstimo sobre o ordenado, etc..
Isto nas melhor das hipóteses, pois na pior encontram-se processos
disciplinares, averiguações policiais, despedimentos com justa causa,
perda de bom nome e respeito, etc.
Chegam ao ponto de ir de férias,
apenas, para locais onde existe a possibilidade de jogar.
Topo
g) O jogo on-line:
Topo
bib
Bibliografia
Esta bibliografia
representa apenas uma parcela do significativo trabalho de investigação
que se faz no estrangeiro e não se limita ao texto acima referido.
- American
Psychiatric Association, (2002). DSM-IV-TR. Portugal, Climepsi Editores.
- Bandura, A. (1977). Social Learning Theory.
New Jersey, Prentice-Hall, Inc.
- Gamblers, A. (2002). Sharing recovery
through gamblers anonymous. L.A. California, Gamblers Anonymous.
- Groth-Marnath, G. (2003). Handbook of
Psychological Assessment, 4th Edition. John Wiley & Sons, Inc.
- Hazel, H. & Blume, S. (1987). The
South Oaks Gambling Screen (the SOGS): A New Instrument for the
- Identification of Pathological. http://www.southoaks.com/files/South_Oaks_Gambling_Screen.pdf
- Heineman, M. (1988). Sharing
recovery, overcoming road blocks. Cork, Ireland: Hazelden educational
materials.
- Heineman, M. (1993). When someone you
love gambles. Cork, Ireland: Hazelden educational materials.
- Ibánez, A., Blanco, C., Donahue, E., Lesieur, H., Castro,
I., Piqueras, J. & Ruiz, J. (2001).
- Psychiatric Comorbidity in Pathological Gamblers
Seeking Treatment. The American Journal of
Psychology, 158, 1733 – 1735.
- Lesieur, H.(1986). Understanding compulsive gambling.
Cork, Ireland:
Hazelden educational materials.
- Lorenz, V.(1989). Standing Up to Fear. Cork, Ireland:
Hazelden educational materials.
- May, R., Whelan, J., Steenbergh, T. &
Meyers, A. (2003). The Gambling Self-Efficacy Questionnaire: An Initial
- Psychometric Evaluation. Journal of Gambling Studies, winter 2003; 19, 4.
- McGowan, K. (2004). Pay attention to
this. Psychology Today, November/December 2004, 84 – 103.
- Martins, S.(2002). Jogo Patológico em
Mulheres: uma Revisão.
-http:www.sppc.med.br/mesas/silviasaboia.html. pp. 5
- Nakken, C.(1996). Personalidade adictiva.
Sintra, Soc. Industrial
Gráfica.
- Nathan, P. (2005). Methodological
Problems in Research on Treatments for Pathological Gamblers. Journal of
-Gambling Studies, Spring 2005; 21, 1.
- Ribeiro, J. (1995). Adaptação da
“Self-Efficacy Scale” de Sherer et al (1982) à população Portuguesa:
- sua utilização no contexto da saúde.
Avaliação Psicológica: Formas e Contextos, 3, 163 - 176.
- Rogers, C. (1985). Tornar-se pessoa.
Lisboa. Moraes Editores.
- Rosenthal, H.(2004). The gambling addiction era cometh. Counsellor magazine, August 2004, 14 – 20.
- Selby, S. (1985). A look at cross
addiction. Cork, Ireland: Hazelden educational materials.
- Valleur, M. (2000). Dépendances sans
drogues. Cerveau & Psycho, 9 , 54 – 59.
- Valleur, M. & Bucher, C. (1997). Une
addiction exemplaire: le jeu pathologique. Toxicodepêndencias,
9 , 59 – 72.
III) ALGUMAS
ESTATÍSTICAS:
IV) ARTIGOS DE CARIZ
CIENTÍFICO:
V) ESTUDOS E
INVESTIGAÇÕES:
VI) CONTRIBUIÇÕES:
ESTUDOS, TESTEMUNHOS, IDEIAS, etc. |