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Crenças e Solidão no Jogador Compulsivo

Em primeiro lugar definiremos crença como “atitude de uma pessoa em relação a uma ideia ou um facto que ela considera definitivamente fundamentado, assente sobretudo em condições irracionais e afectivas” Dicionário temático Larousse (1999).

Freud afirmava o princípio de prazer, centrado na imaturidade e no prazer imediato que evita o princípio de realidade através de vários mecanismos de defesa aperfeiçoados ao longo do tempo, traduzidos em padrões de pensamentos por vezes muito distantes dessa própria realidade, mas perfeitamente enquadrados numa lógica subjectiva do jogador.

Esta inadequação ou incongruência; este afastar da realidade é numa grande parte do tempo não consciente ao próprio.

Jung descreveu o Alcoolismo/Adicçao como “ uma doença espiritual que tem na sua base uma necessidade/desejo de plenitude/unicidade”. O preencher de um vazio tantas vezes descrito nos quadros de diagnósticos do DSM.

O Jogo Patológico ou compulsivo como perturbação do controlo dos impulsos, incluído desde 1980 no DSM III utilizando a seguinte perspectiva “a característica essencial desta perturbação consiste num comportamento desadaptado relativo ao jogo, recorrente e persistente, que conduz a disrupção nos objectivos pessoais, familiares e profissionais”.

Na óptica do manual de diagnóstico e estatística das perturbações mentais no texto revisto da sua quarta edição, as características principais do jogo compulsivo são: o comportamento desadaptado e recorrente face ao jogo arrastando uma persistente preocupação sobre a possibilidade de voltar a jogar; o arranjar dinheiro para tal; o aumento das apostas para obtenção para manter/obter o mesmo estado de excitação; incapacidade para reduzir/controlar o jogo; forte irritabilidade/inquietação durante estas tentativas; jogar como forma de escapar ao humor disfórico (sentimentos de ansiedade, culpa, depressão); perdas repetidas e tentativas persistentes de resgate (recuperar o dinheiro perdido); negação ou branqueamento da extensão do problema às pessoas significativas; prática de actividades ilegais para financiar jogo/pagar dívidas; pôr em risco ou perder relações significativas ou empregos e recorrer a outros para resolver situações financeiras desesperadas.

 As consequências mais comuns são os problemas de disponibilidade financeira; problemas laborais, (ausências, atrasos e fraca produtividade); empregos dispersos e precários; dependências associadas (drogas/álcool/etc.); má nutrição; comportamentos desviantes e criminosos (desfalques, cheques sem cobertura, etc.); baixa auto estima; rupturas conjugais e familiares; doenças graves relacionadas com stress acumulado e intenso; tentativas de suicídio; hospitalização; institucionalização... e muitas vezes a morte.

Acrescenta-se ao Jogador Patológico, ainda segundo o DSM-IV-tr,  os seguintes atributos: “fortes distorções do pensamento ao nível da negação, superstição, hiper confiança, sensação de poder e controlo sendo com frequência pessoas altamente competitivas, enérgicas, inquietas que se entediam fácilmente procurando muito a aprovação dos outros, com grande tendência para desenvolver estados físicos associados ao stress” (hipertensão, enfartes, úlceras, enxaquecas, etc.) muitas vezes culminando em taxas relativamente elevadas de ideação e tentativas de suicídio. É alguém com “comportamentos imaturos, que quer tudo sem fazer o esforço correspondente, com forte necessidade para que tomem conta dele, evitando a autonomia e responsabilidades”.

As características mais salientes parecem incidir na procura acção intensa, sensações fortes e no resgate que é a “obsessão” em ir buscar/recuperar o dinheiro que se perdeu na véspera (ou alguns momentos antes).

O percurso evolutivo destas crenças começa na infância, forma-se no seio familiar, solidifica-se na escola, com o grupo de pares, aperfeiçoa-se na adolescência e muitas vezes rigidifica-se nesta fase perdendo capacidade de adaptação à realidade propriamente dita. Por alguma razão, o jogador não conseguiu adquirir as aptidões e competências a nível pessoal, emocional, comportamental e sobretudo cognitivo que lhe permitissem lidar de forma coerente e eficaz com as situações reais que o contrariavam nas mais diversas formas e etapas do seu desenvolvimento aprendendo a usar uma grelha que o mantinha à parte, de fora, ao longe, alheado, distante .

Crenças que podem acompanhar um adulto toda uma vida sem que este se aperceba do poder que estas têm no seu comportamento, nas suas emoções e sentimentos.

Alguns estudos sugerem história de sintomas de desatenção e de hiper actividade que podem constituir factores de risco, e tal como veremos, certos problemas de ordem relacional ou de incapacidade para adquirir certas competências psicossociais como a assertividade, a gestão da recompensa (impulsividade e prazer imediato), tomada de decisões, identificação e gestão de sentimentos, capacidade empática, comunicação eficaz, etc.

A disfuncionalidade na família parece ser um factor predisponente pois “O Jogo patológico e a Dependência do álcool são mais frequentes em familiares de sujeitos que sofrem desta perturbação do que na população em geral. Parece haver, em certas famílias e meios, uma aprendizagem do jogo; dum modelo nem sempre compulsivo mas que por vezes ultrapassa os limites do prazer social. Estima-se que 1/3 dos jogadores compulsivos são mulheres, se bem que estas estejam muito sub representadas em programas de tratamento DSM-IV-tr, (2002). Nos Jogadores Anónimos esta percentagem varia entre os 2% e os 4% (estigma social forte) que é bem ilustrado nos grupos de auto ajuda Portugueses de Jogadores Anónimos.

No início do Jogo compulsivo pontifica na família uma certa euforia e acreditar na rendibilidade e capacidades do jogador, que vai sendo a base duma enorme negação (do próprio e da família)  que acaba por ser quebrada perante uma série de  acontecimentos mais drásticos como endividamentos, discussões, mentiras, etc. A família vai acompanhando todo este sofrimento ao longo das diversas fases num sofrimento marcado por raiva, frustração, impotência e muito medo a todos os níveis.

É na Adolescência que os primeiros comportamentos de jogo, em especial nos homens surgem, em geral de forma insidiosa, disparando em fases de intenso stress ou maior exposição à actividade mantendo-se episódica até chegar à cronicidade típica (ou seja diariamente). “As taxas de prevalência mais elevadas; 2% a 8% foram encontradas em estudantes liceais e adolescentes, assim como em zonas com forte tradições e incentivos legais ao jogo como Porto Rico ou Austrália. Estima-se entre 0,4% e 3,4% para população geral”. É também nesta fase que surgem primeiros indícios, nalguns jogadores patológicos de perturbações do humor, abuso ou dependência de outras substâncias, outras perturbações do controlo dos impulsos, DSM-IV-tr, (2002).

Em França 90% são homens entre os 25 e 44 anos com forte incidência na faixa dos 40 a 44 anos em que a maioria são casados e têm filhos, só jogam a um jogo específico e possuem dívidas em excesso com problemas na relação conjugal, tendo 20% deles cometidos delitos. Dados bastante semelhantes aos Norte Americanos que coincidem sobretudo na má relação conjugal e no facto de 20% deles terem cometidos delitos, M. Valleur e C. Bucher, (1997).

Existem várias fases ao longo do percurso activo do jogador patológico sendo a primeira definida como Fase Ganhadora: a que chamam também de procura de acção, entusiasmo; euforia e prazer que o jogo proporciona na plenitude duma acção; num momento em que tudo o resto se desvanece, (euforia e anestesia muitas vezes em simultâneo). Um termo menos científico poderia ser o “dar pica” ou procura de “Adrenalina”, “thrill” em inglês. As crenças passam muito por se investirem de capacidades próprias que conduzem a ganhos ultrapassando sem problemas qualquer lógica. Estes ganhos reforçam a convicção que grande parte dos jogadores têm de que são “importantes”, “especiais e diferentes”, os “Big Shots” ou em português menos cientifico ser “o Maior ”, “o Supra sumo”, sendo as perdas diluídas numa racionalização exterior aos próprios e que recai no azar, na má sugestão que seguiram.

Começam os pensamentos de que poderão eventualmente dedicar-se ao jogo a tempo inteiro, ganhado fortunas em vez de trabalhar em função dum mísero ordenado como todos os outros. Até aqui as perdas, os empréstimos são facilmente repostos e tudo vai relativamente bem...

As Crenças mais comuns nesta fase são: ”Sou mesmo especial”, “tenho dons invulgares muito superiores aos outros que me fazem ganhar”, “ hoje vou aplicar a minha estratégia que me fará ganhar ainda mais”, “É uma forma de aumentar a minha qualidade de vida e dos meus...”, “vão ficar tão orgulhosos e admirados com a minha capacidade para ganhar...”, “isto é uma mina para quem saiba jogar...”,

A Fase perdedora ou do Resgate,  em que juntamente com rombos sucessivos na auto imagem e na auto estima que tinham sido reforçadas até aqui, surgem rombos financeiros que começam a ser graves e a vontade de recuperar o dinheiro perdido torna-se inultrapassável, recorrendo aos cartões de crédito, cheques (muitas vezes sem cobertura), usurários, etc.

Esta fase pode estender-se ao longo de anos numa espiral em que o fundo do poço se vai aproximando. O envolvimento, a desorganização, as crenças vão-se reforçando, assim como atrasos e ausências no trabalho para poder ter mais tempo e hipóteses para recuperar e ganhar dinheiro, mas também surpreender os outros numa tentativa de convencer os outros (e a si próprio) que o jogo compensa.

As Crenças nesta fase são sobretudo “Vou lá só ver... e se jogar será só um pouco e venho-me logo embora”, “Levo só esta quantia de dinheiro, deixo os cartões no carro e assim estou garantido se perder...”, “vou lá, e assim que ganhar X dinheiro venho-me logo embora...” “hoje sinto o chamamento.. vou entregar o meu destino à Sr.ª Sorte...”. Convictos que vão ganhar ficam incrédulos ao perder e comentam “ é espantoso, incrível, houve qualquer coisa, aqui ,hoje,, que não correu bem...”,

Quando ganham registam na memória: “ eu sabia que tinha que aguentar pois o bolo estava ali mesmo à minha espera”... eu sabia... tenho é que ser persistente “, “Tenho que manter a onda de sorte...”, ou “ não é mais que o cambiar da sorte e agora recebo com juros tudo o que gastei”.

Na Fase do desespero existe uma drástica alteração no comportamento que se traduz numa obsessão pelo resgate, em que todas as energias se centram no arranjar mais dinheiro (pagar dívidas com novos empréstimos, vendas, roubos etc.), a própria forma de jogar (padrões antigos) torna-se irracional, marcada por uma grande irritabilidade, stress, hipersensibilidade, pensamentos de fuga (geográfica) e pensamentos suicidas. O jogador tem no entanto incríveis capacidades de disfarçar e esconder tudo isto dos outros.

As Crenças aqui são tanto mais reforçadas quanto o jogador se tem de defender duma realidade que o confronta duramente e sistemáticamente, e são: “Tenho mesmo de lá ir pois é a única forma de reaver o que lá perdi ontem”, “hoje é o dia que vou ganhar, e vou mesmo ganhar pois é a forma que tenho de resolver todos os meus problemas de uma vez...”, “ e assim também mostro aos outros todos como é que é...”Com o que vou ganhar hoje vou calá-los a todos sobre o dinheiro que já perdi...”, “esta será a última vez...”, “tem que ser, não existe alternativa”.

Existe uma grande reactividade e irritabilidade manifesta em pensamentos ou reacções aos simples observadores como; “o que é que este idiota está para aqui a olhar... só me está a dar azar...”

Existem diversas perspectivas e abordagens que se completam e interpenetram sobre Jogo Compulsivo.

No modelo Bio psicológico ou Neuropsicológico existe uma abordagem das emoções, em que sobressai a procura de sensações fortes que podem ter uma base fisiológica/genética (níveis de activação cerebral elevados) em que esses estímulos são procurados internamente através de comportamentos que façam disparar certas “substâncias internas”. Aqui não seriam as crenças a funcionar mas sim a compulsão/obsessão a traduzir uma disfunção “biológica”.

Foram encontradas correlações significativas face à adicção nos filhos de alcoólicos existindo indicações sobre a possibilidade de estas se estenderem a outras dependências, nomeadamente o Jogo compulsivo. Existem várias hipóteses que vão das anomalias em diversos sistemas neurotransmissores como a dopamina, ausência dos receptores D2, de serotonina, dependência da própria adrenalina, tal como nalguns desportistas em relação às endorfinas/enkéfalinas, etc.

Na perspectiva sociológica a visão do jogo patológico centra-se numa linha de continuidade entre os poucos que não jogam, a maioria que joga ocasionalmente e outra minoria que usa, abusa e se torna dependente num comportamento desviante esperado e previsto estatisticamente. Seriam aqui necessários mecanismos de controlo, promover formação específica no campo das aptidões psicossociais afim de evitar excessos, numa população muito reduzida, em vez de um tratamento propriamente dito, mas o problema seria como identificar os sujeitos ou grupos de risco e como agir consequentemente no domínio da ética.

 

a perspectiva da adicção/dependência, todos sintomas e características dos comportamentos ou personalidades adictivas se encontram presentes. Desde o Síndroma de tolerância (necessidade de jogar cada vez mais alto para obter o mesmo prazer) à abstinência (irritabilidade, obsessão por voltar a jogar), à forma como afecta vida familiar, conjugal, social, profissional, etc. entre outras características como a negação, obsessão, compulsão, vazio emocional e espiritual. É relevante o facto de muitas vezes existirem nos jogadores adicções cruzadas, ou outra adicção que substitui o jogo quando param com este.

A abordagem Cognitiva centra-se nas crenças, nos automatismos, na percepção de auto eficácia do jogador, dando como exemplo os ganhos, em especial o “super prémio”, o acreditar das suas capacidades ao nível da inteligência, do saber ganhar, controlar as jogadas e as próprias máquinas. O jogo como essência da vida que tem que ser a vivida ao máximo, sendo este o meio mais eficaz. Esta crença específica que “controlam e sabem” pode estar ligado tanto a um meio familiar/social onde o poder e o dinheiro eram muito valorizados como a traços de personalidade típicos do jogador como o ser extrovertido, com capacidades de liderança, hiperactivo, inteligência, etc.

“Tenho um dom, capacidades que fogem ao normal que me permitem obter o que quero...”, “vamos lá ao que interessa... (dinheiro, poder, reconhecimento)”

Na abordagem comportamental o reforço positivo opera na fase inicial em que o investimento é baixo face aos elevados ganhos. A recompensa fica gravada e condiciona todos os futuros comportamentos no âmbito do condicionalismo operante. Muitas recaídas podem de facto, ser associadas ao reflexo condicionado, à associação com determinados momentos, sítios, pessoas, a um traço mnésico muito intenso e que dispara em certos contextos ou associações com o passado de Jogo. Reformula-se a problemática de uma suposta memória selectiva que só activa as memórias agradáveis relacionadas com o jogo, afastando assim o recordar das consequências negativas.

A abordagem psicanalítica relaciona o acto de jogar com o desafio ao destino, que se traduz no desafio ao pai, seu rival face à mãe. O jogador seria aquele que não aceita ou que questiona a lei. Jogar seria repor uma relação parental não resolvida.

Voltamos aqui à frase de Jung sobre o vazio e a procura de unicidade/plenitude que pode ir de encontro a outras teorias que defendem a dependência de substâncias, pessoas, ou situações como a procura de uma relação “estável, previsível, “ que substitui toda a incerteza e sofrimento de relações disfuncionais, que não resultam (resultaram) ou das quais não se consegue fazer o luto.

A abordagem dinâmica reforça e baseia-se no desejo inconsciente de perder, necessidade inconsciente de punição ou então representa um acto sistemático de revolta contra a autoridade parental através de actos contra a lógica (a probabilidade) em que o princípio de prazer se sobrepõe ao da realidade. A esta revolta, a culpabilidade exige uma punição que se manifestaria através da perda e do prejuízo.

             As Crenças ainda segundo M. Valleur e C. Bucher, (1997), poderiam ser as seguintes: em primeiro “Sou todo-poderoso, comando o meu destino e estou-me nas tintas para as regras que são apenas hipocrisia...”, em segundo lugar “Sou punido mas isso não me preocupa interiormente, apesar de conscientemente ser uma vítima...”, e por último “ Sou superior aos gigantes que me punem pois sou eu no fundo que faço com que me castiguem...”. Esta parece ser de facto a base de todas as outras crenças e salienta o grande círculo repetitivo que consiste no; “jogo, sou castigado (perda), e recupero para assim voltar a jogar (recaída)” num moto perpétuo de mau prognóstico. Desafio/prazer versus culpabilidade/punição seriam assim os elementos do pêndulo que dinamiza este círculo que mais se assemelha a uma espiral “descendente” de desafio/morte e ressurreição. Lembrando de certa forma o mito Sísifo. “tenho mesmo que lá ir jogar... não existe alternativa, tenho que ir cumprir o meu destino”, só que nao existe de facto a consciencia clara que será apenas mais uma repetiçao em q a diferença se situa no descer de mais um degrau em direcçao ao fundo do poço.

Existe também a possibilidade do desafio à autoridade ser interpretado como desafio à morte que se vence em cada aposta, em cada momento da expectativa, de desejo, de exaltação no próprio desafio. Mas também algum desejo de se submeter à lei, talvez também à pulsão de morte.

A abordagem centrada na pessoa e a tendência actualizante podem trazer alguma luz sobre esta problemática. Como vimos, a necessidade de obter estados de humor determinados a todo o custo pode ter um paralelo com a vontade do Self real atingir o Self ideal desejado, mas de forma inadequada. Seria naquele momento/fase a forma indicada, seria a manifestação de uma tendência actualizante que estaria funcionar numa direcção possível, que virá a manifestar-se posteriormente como contraproducente.

Rogers afirmava em 1961, “o que é trágico para muitos de nós, é que as nossas defesas nos afastam de ter consciência desta racionalidade, o que nos faz mover conscientemente numa direcção, enquanto que organísticamente nos movemos noutra”. A incongruência é a discrepância que pode surgir entre a experiência do organismo e o conceito de Self, ou seja desacordo entre imagem do Eu e a experiência real vivida. Esta não convergência pode gerar confusão, conflito, psicopatologias, condicionar comportamentos e manter uma personalidade instável. Este é um dos retratos da ansiedade em que vive o jogador compulsivo. A angústia que se situa entre o querer ser e o preço a pagar por sê-lo. As crenças, neste caso,  cumprem o papel de “legitimar” o “querer ser”, e em simultâneo, reduzir ou evitar o “preço a pagar”; o que obviamente só funciona até determinado momento.

Poderemos pois dizer que é um problema multifactorial, complexo, com várias perspectivas e dimensões em simultâneo, em que a compreensão passa pela compreensão sistémica de um conjunto de factores que se reúnem.

É muito importante avaliar a evolução e as mudanças nas próprias crenças ao longo da abstinência perante o jogo compulsivo. As crenças em recuperação/abstinência são sobretudo fundamentados no medo com diversas origens e intensidades onde se realçam o medo de falhar, ser rejeitado, a exposição do Eu real, de não conseguir regularizar dívidas. Estas crenças traduzem-se em “Têm que gostar de mim e eu ser aceite...”, “ tenho que estar sempre em pleno controlo da situação...”, “tenho que ser hiper competente em tudo o que faço...” e “tenho que evitar situações desagradáveis...”. São sempre o verbos “devo”, “tenho que”, no sentido de uma exigência de si desmesurada, duma necessidade de controlo que elucidam sobre a dificuldade dos jogador em definir limites e em entregar/deslargar (essencialmente face aos medos). É especialmente difícil lidar com estes medos em recuperação pois agora há tempo para os pensamentos fluírem, há tempo para sentir sem se estar instalado na correria do jogo, e do arranjar dinheiro para o jogo.

Lidar com a rejeição pela crença do controlo dos outros via parte financeira (ser o maior, que paga, controla, empresta, dá, etc.)

Lidar com a rejeição ao nunca mostrar quem realmente são pelo medo que não iriam gostar deles ou que, mostrando-se perderiam o controlo sobre si e sobre o outro.

Lidar com o medo de se criarem relações de intimidade onde possam ser magoados ou rejeitados, “pois é o que sempre aconteceu”.

Lidar com o medo de serem descobertos mantém-se em recuperação através de uma culpabilidade atribuída ao passado ruinoso, através do medo que possam pensar que continuam a fazer algo desonesto mesmo não o fazendo. Outras vezes é o medo de ter algum problema mental (“mesmo à séria”), do problema ser algo que ultrapasse a adicção propriamente dita. A combinação do medo com a culpabilidade é um dos factores de risco na abstinência do jogador compulsivo.

Outra da áreas problemáticas é a relação do jogador com o dinheiro para quem ter dinheiro é tudo (segurança, poder, imagem) e ao mesmo tempo um profundo desprezo por aquilo que mais não era que apenas um meio de jogar.

Mentir é uma velha necessidade e hábito do passado que tende a manter-se em recuperação sendo muito perigosa pela semelhança directa com os padrões do jogo e pelas consequências que trazem.

Da mesma forma, as “apostas mentais” que o jogador faz consigo mesmo, sem dinheiro, mas para sentir a adrenalina de outros tempos, num desafio interior sistemático que tenta substituir o jogo propriamente dito ou para ultrapassar o grande aborrecimento, ou a ansiedade que lhes trazem os primeiros tempos sem jogar.

O orgulho, a arrogância e a grandiosidade são também factores de risco “ o que é que vão pensar de mim sem $ no bolso..., alguma vou dizer àquele que não vou ao jantar por falta de dinheiro..., antes só que humilhado por isto...”. Esta necessidade de poder e controlo são o calcanhar de Aquiles do Jogador. O acreditar piamente que “Sou especial e diferente...”, e sobretudo  o “Eu mereço ....”

A capacidade de empatia, de expressar sentimentos não é o ponto forte do jogador em especial depois de descobrir a sua imaturidade, irresponsabilidade e desconfiança. Isto gera um sentimento de inadequação, de distanciamento e incapacidade de vivência de relações com intimidade

O alternar adicções significa tão simplesmente evitar o contacto com a realidade ao trocar, por exemplo, o Jogo pelo álcool, e depois pelo trabalho, voltar ao jogo e assim, nunca ir (aparentemente) ao fundo em nenhuma delas e mantendo ao longo de anos os padrões adictivos intocáveis. 

A adicção cruzada é outra das características do jogador compulsivo que é responsável  pelo aumento de negação, pois o problema aparece minimizado, disfarçado ou dividido com outro. Isto facilita a negação do problema e retarda o início do processo de recuperação. As adicções cruzadas mais comuns no Jogador são o álcool e as drogas, tendo em conta um estudo no centro de South Oaks Hospital em que 20% dos alcoólicos e toxicodependentes tinham problemas de abuso perante o jogo e metade destes eram jogadores patológicos. Deixamos a dependências do trabalho (workaholics) de  fora  pois é frequentemente fruto de uma necessidade imperiosa de arranjar disponibilidade financeira para jogar ou pagar dívidas.

           Em conclusão poderá dizer-se que este conjunto factores poderosos obrigam à construção de um elaborado sistema de crenças, a um eficaz leque de mecanismos de defesa, que permitem não só reprimir/adiar sentimentos penosos como criar uma justificação plausível (ao próprio) para prosseguir num comportamento altamente auto destrutivo. Esta incrível capacidade cognitiva, esta plasticidade ou flexibilidade mental, que se define como crenças, permite ao Jogador congelar sentimentos, justificar insanidades cometidas (ou a cometer), permite fantasiar uma realidade e quantas vezes arrastar nesse sonho famílias inteiras.

Nesta incessante procura o Jogador instala-se numa dinâmica repetitiva de desafio, perda, culpa deparando-se sobretudo com o crescimento da angústia que se situa entre o querer ser e o preço a pagar por sê-lo.

Quanto mais o jogador entra na espiral descendente de solidão, desespero, dívidas, rupturas familiares mais se estrutura nele este complexo e eficaz sistema de crenças sem o qual viver seria um sofrimento tão intenso que por vezes só encontra solução na sempre última aposta, no suicídio.... ou em recuperação.

 

 

 

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